Massacre e declaração de guerra
As forças armadas marroquinas desmantelaram com extrema violência o acampamento de protesto sarauí próximo de El Aiún, cidade à qual se estendeu a repressão. A Frente Polisário apela a uma intervenção urgente das Nações Unidas para travar o massacre.
«Dez pessoas morreram, 700 ficaram feridas e 150 encontram-se desaparecidas»
Às primeiras horas da manhã de segunda-feira, forças especiais apoiados pelo exército marroquino atacaram o acampamento onde, há quase um mês, cerca de 25 mil sarauís permaneciam em protesto contra as discriminações económicas e sociais de que são alvo nos territórios ocupados.
De acordo com testemunhas locais, depois de cercarem o campo e ordenaram a saída imediata de mulheres e crianças, as forças terrestres do reino de Marrocos, apoiadas por vários helicópteros, investiram com extrema violenta contra os acantonados. Canhões de água, granadas de gás lacrimogéneo e balas de borracha foram usados para quebrar a resistência.
Inicialmente, fontes da Frente Polisário indicaram que uma pessoa morreu, centenas ficaram feridas e pelo menos 65 foram detidas por se oporem à investida. Terça-feira, a República Árabe Sarauí Democrática (RASD) corrigiu o balanço da operação para uma dezena de mortos, 700 feridos e 150 desaparecidos.
Cooperantes espanhóis presentes no local, citados por órgãos de comunicação social, indicam que as seis a sete mil tendas ali instaladas foram quase todas queimadas durante a agressão.
Em pouco tempo, o acampamento que albergava milhares de pessoas pura e simplesmente deixou de existir. Os evacuados à força foram obrigados pelas autoridades marroquinas a dirigir-se a pé até El Aiún.
A Polisário considera a intervenção como uma declaração de guerra e mais uma ruptura unilateral do cessar-fogo.
Cidade em pé de guerra
Reagindo à brutal repressão de que abatia em Gdeim Izik, centenas de sarauís saíram às ruas da ocupada capital do Sara Ocidental. Em pouco tempo, El Aiún transformou-se em cenário de autênticas batalhas campais entre povo e forças marroquinas.
A população local e os recém chegados do acampamento defenderam-se como puderam das vagas repressivas que ocorriam um pouco por toda a cidade cercada.
As informações que lograram furar o bloqueio imposto nas comunicações e pelos postos de controlo nas estradas, indicam que a sede local da televisão marroquina, os escritórios do Ministério da Energia e o posto dos correios foram queimados pelos manifestantes.
Dados divulgados pelas autoridades sarauís, por seu lado, revelam que o exército armou previamente centenas de colonos marroquinos, instando-os a perseguir os habitantes sarauís. Foi o próprio presidente da Associação Sarauí-Marroquina quem confirmou que «várias centenas de civis [colonos marroquinos] se uniram aos agentes contra os activistas sarauís».
A acção destas milícias controladas pelo exército salda-se, para já, em centenas de casas e veículos destruídos. O número de mortos, feridos e detidos não era conhecido à hora do fecho da nossa redacção.
Ataque previsível
O assalto ao acampamento de Gdeim Izik ocorreu precisamente no dia em que as delegações do reino de Marrocos e do Sara Ocidental iniciavam, em Nova Iorque, uma reunião informal para falar da situação no território.
O ataque não suspendeu as conversações, mas o ministro dos Negócios Estrangeiros Sarauí, Mohammed Uld Salek, não deixou de qualificar a acção repressiva de «barbárie» e de apelar à intervenção urgente do Conselho de Segurança das Nações Unidas para «pôr fim a este crime».
No domingo, horas antes da agressão marroquina, o presidente da RASD, Mohamed Abdelaziz, alertou o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki Moon, para a preparação de um massacre, sustentando a afirmação no aumento do aparato militar em torno do acampamento.