Futebol: desporto de emoções e mais qualquer coisa
São milhões e muitos os interesses que se movimentam a pretexto do Mundial
Lusa
O campeonato mundial de futebol decorre repleto de emoções, nervos, alegrias de uns e tristezas de outros. Ali estão atletas e equipas técnicas, alguns pela primeira vez, a partilhar do mesmo objectivo: jogar o melhor possível – o que é inerente a qualquer modalidade, atleta e todos quantos vibram nas bancadas.
Sabemos que o futebol faz vibrar, como todo o desporto para os seus atletas e adeptos. Mas também sabemos que sob a ponta do icebergue do desporto se escondem camadas que pouco ou nada têm a ver com os princípios e valores desportivos. São milhões e milhões e muitos os interesses que se movimentam – e este Mundial é parte deste processo, como tem sido exposto com particular evidência na sua preparação e realização.
São 48 selecções, 104 jogos e três países anfitriões, certamente com interesses que nem sempre coincidem. Se em Portugal a organização de uma competição desta natureza terá certamente um impacto a vários níveis, tal não será o mesmo para uma potência como os EUA.
Interesses acima do desporto?
Em 2010, os EUA perderam a organização do Mundial de 2022 e a maior potência imperialista do mundo precisava de intervir, assistindo-se a abalos na FIFA, com investigações, transformações e um crescimento da lógica de ainda mais lucro, gerando maiores mudanças negativas no futebol, onde não se vislumbram limites na criação de novas competições e no aumento do número de países participantes, entendidas como novas oportunidades de negócio, adequando as vontades aos interesses.
O Mundial de 2026 é o maior de sempre, realizado um ano após se ter estreado o Mundial de Clubes, um novo formato que levanta o véu sobre as dinâmicas que se pretende promover na “actual” fase da FIFA. Exemplo disso, nessa competição, foi a cobrança de valores de transmissão dos jogos acima do proposto pelo “mercado”. O preço cobrado pela FIFA à DAZN pelos direitos de transmissão foi o preço pago pelo Fundo de Investimento Público saudita para garantir uma cota de cinco por cento da empresa transmissora de eventos desportivos.
Aí se expressava o desejo da Arábia Saudita em realizar um Mundial e uma intervenção no calendário permitiu que o receba em 2034. A FIFA empenhou todos os esforços para incluir este país numa lista de países organizadores, falhando primeiro com o Mundial feminino, mas conseguindo realizar um Mundial em 2034, depois da Confederação Asiática já ter organizado uma prova em 2022. Até 2034, foi preciso tomar medidas para assegurar a presença do Mundial em vários continentes. O Mundial 2030 é disso evidência: à candidatura composta por Marrocos, Espanha e Portugal juntam-se Uruguai, Argentina e Paraguai para a realização de jogos. Assim, volta a Ásia a ter direito à organização de um Mundial em 2034.
Prémio da Paz?
Em 2026, temos um Mundial onde, apesar de serem três os países organizadores, sobressaem as tentativas de Trump e dos EUA em se imporem (certamente não pela paixão pelo futebol), com a FIFA a deixar cair regras que foram exigidas em antigas edições. Uma organização da festa do futebol por um país que quer ser todo poderoso, mas que usa o evento para iludir a insatisfação no seu povo, de que são exemplo a rejeição das medidas repressivas contra as manifestações anti-ICE.
Acresce a polémica da bilhética e o custo dos direitos de televisão e rádio, que atingiram valores escandalosos, limitando o acesso aos jogos, como se verifica em Portugal. Comparando com o Mundial do Catar, em que dos 64 jogos 36 tiveram transmissão em sinal aberto, neste Mundial, dos 104 jogos previstos apenas 34 poderão ter transmissão em sinal aberto.
São os mesmos EUA, cujo presidente recebeu o “Prémio da Paz da FIFA”, que chegaram a pôr em causa a participação do Irão na competição, que impediram a presença dos melhores do mundo, como o árbitro somali, que impuseram humilhações a atletas, com revistas policiais nas viagens entre jogos, em particular a equipas africanas, sul-americanas e asiáticas. Sendo de questionar se para participar numa competição desta natureza já não basta ter mérito desportivo, passando também a ser necessário subordinar-se às concepções da classe dominante dos EUA.
Um “Prémio da Paz da FIFA” que, atribuído à boleia de um desporto que move paixões em milhões de adeptos por todo o mundo, não consegue apagar a escalada belicista do imperialismo norte-americano; a agressão militar dos EUA e Israel contra o Irão; a ofensiva dos EUA na América Latina e Caraíbas e, em particular, na escalada de agressão contra Cuba socialista; assim como o papel central dos EUA na escalada belicista da NATO visando a confrontação com a Rússia, em que se insere o prolongamento da guerra na Ucrânia, e que esteve patente na cimeira deste bloco político-militar agressivo que se realizou dias 7 e 8 de Julho, em Ancara, na Turquia.
O futebol e o desporto precisam que os valores desportivos falem mais alto!




