As 47 páginas do Chega

Margarida Botelho

O Chega contradiz-se tanto, diz tanta vez uma coisa e o seu contrário, que não nos chegavam as horas dos dias e os caracteres dos textos para ir registando os malabarismos.

Mas no caso do pacote laboral vale a pena fazer registo para memória futura. Desde os sindicalistas “sanguessugas” ao envergonhado voto contra, André Ventura foi dizendo de tudo. Na Assembleia da República entregou um projecto-lei, que abanou gritando no plenário, com “47 páginas” de alterações ao código do trabalho.

Essa é a parte que é verdade: são mesmo 47 páginas. Que têm lá escritas coisas muito curiosas: flexibilidade e disponibilidade horária; banco de horas; outsourcing depois de despedimentos; exclusão de reintegração de trabalhadores após despedimentos ilícitos alargado às pequenas empresas; atestados médicos trimestrais para provar que se amamenta depois dos dois anos do bebé.

Montenegro, Palma Ramalho, Mariana Leitão, para além das confederações patronais, assinariam por baixo destas propostas com gosto. Tal como os deputados do Chega assinaram.

O que se passou na votação do pacote laboral não tem nada a ver com negociações nem linhas vermelhas. Tem a ver com uma luta tão forte e tão poderosa, durante onze meses, incluindo duas greves gerais, uma concentração de milhares de pessoas durante mais de três horas à torreira do sol enquanto a discussão se fazia, com a presença de centenas de dirigentes sindicais a testemunhar a votação e a dizer-lhes até ao último segundo: nós não vos largamos, este pacote não passa. Foi essa luta que determinou e venceu.

O que o Chega pensa e quer para os trabalhadores e para os locais de trabalho está escrito naquelas 47 páginas, e mesmo assim com medidas demagógicas e as omissões convenientes para esconder o muito em que está de acordo com a proposta do Governo. Está expresso na imagem de parte da Assembleia da República e das galerias em peso a aplaudirem o chumbo do pacote laboral, com os deputados do Chega sentadinhos e caladinhos ao lado dos que votaram a favor. Porque é com eles que estão. Não é com quem trabalha. Que ninguém se engane.

 



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