Os cravas
Carlos Vasconcelos, CEO da Medway, numa recente entrevista, apresenta-nos a privatização da CP Carga como um grande sucesso: «Praticamente duplicámos o volume de negócios. A CP Carga faturava à volta dos 65 milhões na altura e em 2025 chegámos aos 112 milhões.» Não é verdade. Em 2014, o ano antes da privatização, os proveitos operacionais foram de 89,7 milhões de euros! O que, a valores constantes de 2025, e portanto comparáveis, representam 111,2 milhões de euros. Exactamente o mesmo volume de negócios. Só que se reduziu a parte da operação realizada em Portugal, e cresceu a parte realizada em Espanha.
Diz ainda: «Este ano não devemos atingir o “break even” [As empresas públicas dão prejuízo, as privatizadas «não atingem o break-even», é tão mais fino.]... se não tivesse sido feita a privatização a CP Carga muito provavelmente teria continuado com as perdas que tinha. Nós talvez tenhamos poupado ao país em 10 anos entre 150 e 200 milhões de euros… e o nosso acionista suportou os prejuízos que houve que suportar.» Antes de agradecer a tão santo capitalista, saibam que em 2014 a CP Carga pública teve um lucro de 5 milhões de euros. Mas a questão central não é essa, pois é verdade que a CP Carga tinha regularmente prejuízo. Já pode ser relevante saber (é público, mas o jornalista esqueceu-se de perguntar) que a Medway deve 18,5 milhões à IP pois deixou de pagar taxa de uso (sem o que as contas seriam outras). Mas se se quer comparar os resultados financeiros de CP Carga e da Medway, o fundamental é isto: lembrar as 48 locomotivas oferecidas à Medway pela CP na privatização, que a Medway ainda hoje usa (outra mentira da entrevista) e que custavam à CP Carga um aluguer anual de 18 milhões de euros.
Poderia pensar-se que tanta mentira era um favor ideológico feito à classe capitalista, para ajudar nas próximas privatizações. Mas é só conversa de crava a preparar um novo cravanço. Como «o sector» (2 multinacionais) só esta receber «9 milhões por ano», e mais uns milhões do PRR, quer mais, quer isenção total de taxa de uso. Quer e o Governo já está a preparar-se para satisfazer tão ecológica reivindicação.




