Conversações Irão-EUA decorrem na Suíça
Após a assinatura do “Memorando de Entendimento”, responsáveis do Irão e dos EUA mantiveram, no início desta semana, conversações na Suíça, mediadas por Paquistão e Qatar. Para lá de aspectos organizativos, as conversações foram marcadas pela exigência do Irão do cumprimento do estipulado relativamente ao fim da agressão de Israel ao Líbano.
Fim da agressão de Israel ao Líbano, inscrita no Memorando, é para cumprir, afirma o Irão
Face à tentativa de Israel de não se vincular ao Memorando, de manter e, se possível, ampliar, os territórios ilegalmente ocupados (no Líbano, mas também na Palestina e na Síria) e de continuar a agressão ao Irão e a desestabilização do Médio Oriente, as autoridades iranianas exigiram aos EUA o cumprimento do estipulado relativamente ao fim da agressão militar de Israel contra o Líbano.
Por pressão do Irão, os EUA terão forçado Israel a um cessar-fogo e à retirada das suas forças militares de alguns dos territórios que ocupam ilegalmente no Sul do Líbano. Irão e EUA acordaram a criação de um mecanismo de acompanhamento, que integra o Líbano e é facilitado pelos dois países mediadores, para assegurar o fim da agressão ao Líbano, como estipula o Memorando.
O Paquistão e o Qatar informaram na segunda-feira, 22, que se criou também um mecanismo para futuras conversações técnicas entre o Irão e os EUA. Numa declaração conjunta, tornada pública pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros paquistanês, os mediadores informam que a primeira sessão de conversações de alto nível no quadro do “Memorando de Entendimento” decorreu no domingo, em Burgenstock, na Suíça, com a participação de representantes do Irão, dos EUA, do Paquistão e do Qatar.
Assinalaram que na reunião no Lago de Lucerna, Irão e EUA acordaram o estabelecimento de um Comité de Alto Nível, que proporcionará supervisão política sobre a mediação. Os negociadores principais informarão periodicamente o Comité de Alto Nível e dirigirão grupos de trabalho centrados em diversos temas, como as questões nuclear ou das sanções, e um grupo de acompanhamento e resolução de disputas para garantir a implementação efectiva do “Memorando de Entendimento” e outros assuntos – indica a declaração conjunta.
O texto destaca que o Comité de Alto Nível acordou ainda um roteiro para alcançar um acordo final, no prazo de 60 dias, e assentou as bases para o início imediato de novas conversações técnicas. Além disso, estabeleceu-se uma linha de comunicação entre Teerão e Washington para evitar incidentes e mal-entendidos e, assim, garantir a passagem segura de navios comerciais pelo Estreito de Ormuz.
Na sequência destas conversações, os portos iranianos registaram na segunda-feira uma reactivação do tráfego marítimo depois do levantamento do bloqueio naval imposto pelos EUA, o que permitiu o retorno gradual de embarcações comerciais aos portos do sul do país. Vários navios mercantes iranianos, que permaneciam fundeados em águas do Golfo Pérsico, começaram a dirigir-se para os portos de Bandar Abbas e Kong, localizados nas proximidades do estratégico Estreito de Ormuz.
As conversações técnicas sobre todos os temas continuam ao longo desta semana no complexo turístico de Burgenstock, precisa a declaração conjunta.
Pontos do “Memorando de Entendimento”
O Memorando inclui 14 pontos, seguidamente resumidos:
1 – Fim imediato da guerra: EUA, Irão e seus aliados comprometem-se a pôr fim de imediato às hostilidades em todas as frentes, incluindo o Líbano, e a não realizar novas acções militares entre si.
2 – Respeito pela soberania: as duas partes comprometem-se a respeitar a soberania, a integridade territorial e a não interferência em assuntos internos.
3 – Negociação de um acordo definitivo: Washington e Teerão têm 60 dias para negociar um tratado permanente, podendo o prazo ser prorrogado por mútuo acordo.
4 – Retirada militar dos EUA: os EUA comprometem-se a pôr fim ao bloqueio naval ao Irão, restaurar o tráfego marítimo e retirar as suas forças militares das áreas próximas do Irão, após conclusão do acordo final.
5 – Reabertura do Estreito de Ormuz: o Irão compromete-se a restabelecer o fluxo de navios mercantes entre o Golfo Pérsico e o Mar de Omã (totalmente aberto antes da agressão norte-americana e israelita, iniciada a 28 de Fevereiro), incluindo operações de remoção de minas.
6 – Fundo de reconstrução: os EUA e seus aliados apoiarão um fundo de reconstrução e desenvolvimento económico do Irão com um financiamento mínimo de 300 mil milhões de dólares.
7 – Fim das sanções ao Irão: os EUA comprometem-se a pôr fim às sanções impostas ao Irão, incluindo medidas unilaterais, sanções secundárias e restrições ligadas a organismos internacionais.
8 – Compromisso sobre o programa nuclear: o Irão reitera que não desenvolverá armas nucleares (o que já antes garantira) e as questões relacionadas com o urânio enriquecido serão tratadas nas negociações finais.
9 – Manutenção do actual estatuto: enquanto decorrer o processo de negociação, o Irão manterá o estágio do seu programa nuclear e os EUA não aplicarão novas sanções nem ampliarão a sua presença militar na região.
10 – Exportações de petróleo iraniano: os EUA emitirão autorizações para a exportação pelo Irão de petróleo, petroquímicos e serviços associados.
11 – Desbloqueamento de activos iranianos: os EUA comprometem-se a libertar os activos financeiros iranianos congelados no exterior.
12 – Mecanismo de supervisão: será criado um sistema de monitorização para acompanhar a implementação do acordo e verificar o cumprimento dos compromissos assumidos.
13 – Garantias de implementação: as negociações para o acordo definitivo avançarão à medida que forem implementadas as medidas relacionadas com a navegação no Estreito de Ormuz, com o fim do bloqueio pelos EUA e com o levantamento das sanções norte-americanas.
14 – Aprovação da ONU: o tratado definitivo deverá ser incorporado numa resolução vinculativa do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
O Memorando, com os seus 14 pontos, demonstra que os EUA e Israel não alcançaram nenhum dos objectivos a que se propuseram com a sua guerra de agressão contra o Irão, como a “mudança de regime”, o fim do programa nuclear do Irão, o desmantelamento do seu programa de mísseis, o seu apoio a quem resiste aos planos do sionismo e do imperialismo e à sua violenta acção no Médio Oriente.
Agora é necessário que os EUA cumpram os compromissos que assumiram, que Israel não boicote as negociações e se retire dos territórios ilegalmente ocupados do Líbano, mas também da Palestina e da Síria, e que seja concretizado o Estado da Palestina, conforme estipulam as resoluções da ONU.
A resistência e a solidariedade terão que continuar!




