Zero complacência com a precariedade na ciência!
Nenhum país terá um futuro próspero sem investimento na ciência
Sofia, 32 anos. Na continuidade do trabalho de doutoramento em engenharia de sistemas, concluído há um par de anos, a engenheira electrotécnica de formação participa no desenvolvimento de modelos de aprendizagem automática, que ajudam a analisar enormes quantidades de dados em segundos. As aplicações vão da saúde à indústria, passando pela protecção civil, entre muitas outras. Não lhe faltam ofertas de trabalho no estrangeiro, mais bem pagas do que por cá. Os seus planos de trabalho e de vida estendem-se para além dos dois anos que lhe restam do contrato a prazo, mas não deixam de ser limitados pela incerteza quanto à possibilidade de renovação desse contrato. Se a renovação vier, sobrará ainda a incerteza sobre o que virá depois de concluído o seu prazo.
Miguel, 44 anos. Há anos que investiga novas terapias genéticas para o tratamento do cancro, numa abordagem inovadora que consiste em recolher células do sistema imunitário do doente, modificá-las geneticamente em laboratório para reconhecer e atacar células tumorais. Terapias que se querem mais eficazes, seguras e acessíveis a mais gente, evitando consequências negativas das terapias convencionais e garantindo remissões duradouras. O caminho que vai da licenciatura e mestrado em bioquímica ao doutoramento na área da imunologia, seguido de pós-doutoramento, serviu a Miguel para coleccionar uma longa – mas nada invulgar – quantidade de bolsas de investigação, entremeadas com um ou outro contrato de trabalho, sempre temporário. Alguns dos planos de futuro que foi idealizando vão sendo adiados ao mesmo ritmo a que se sucedem os contratos precários.
Ana, 39 anos. O doutoramento, já distante, focou-se no desenvolvimento de novos materiais para células solares de elevada eficiência. Apesar de ter sido parcialmente desenvolvido em contexto empresarial, isso não lhe garantiu, na indústria, o emprego como investigadora com que chegou a sonhar. Regressou à universidade e a um centro de referência na sua área. O percurso da cientista ganhou a abrangência ditada pela necessidade de procurar projectos, colaborações e financiamentos disponíveis. Várias bolsas de investigação e alguns contratos a prazo depois, dedica-se à física de plasmas e à pesquisa de novos materiais com aplicação em diversos sectores industriais. Mudou o objecto de estudo, não mudou a sua condição precária – no trabalho, como na vida.
As três histórias acima são ficção. Mas qualquer semelhança com pessoas e factos reais, mais do que possível, é uma certeza.
Estimativas oficiais apontam para a existência de cerca de 8000 bolseiros de investigação e mais de 3000 investigadores doutorados com contratos precários em Portugal, em todas as áreas do conhecimento. É na sua força de trabalho que assenta, em larga medida, o funcionamento do Sistema Científico e Tecnológico Nacional. Trabalham anos a fio, décadas, sem perspectivas de integração na carreira. No caso dos bolseiros, trabalham sem contratos de trabalho, sem acesso a subsídio de desemprego, sem protecção na doença, sem direitos de maternidade e paternidade, sem férias pagas. Procuram respostas – por vezes encontram-nas – para alguns dos maiores desafios do nosso tempo. Mas continuam sem resposta a uma pergunta singela: quando chegará a sua vez de ter um contrato de trabalho e uma carreira estáveis?
PSD, PS, Chega, IL e CDS têm inviabilizado sucessivamente soluções propostas pelo PCP para fazer justiça a estes trabalhadores. Cínicos, de quando em vez, vertem uma lágrima de crocodilo pelos jovens qualificados empurrados para a emigração.
Nenhum país terá um futuro próspero sem investimento na ciência. Não há investimento sério e consequente na ciência sem reconhecer direitos, condições de trabalho e carreiras dignas a quem a faz.
A luta destes trabalhadores não esmorece. A greve geral, a que aderiram tantos investigadores, foi mais uma etapa nessa luta, que continua. A unidade contra o pacote laboral reflecte uma compreensão alargada de que a precariedade deve ser erradicada, não generalizada.




