Assobia para o ar
O mediatismo que assumiu a operação em torno do PS a propósito de um conjunto de procedimentos susceptíveis de configurarem práticas ilegais e danosas poderia, e deveria, ter trazido a terreno uma avaliação mais densa sobre o que a montante de tais acontecimentos deveria ser escrutinado. Seguramente que se meio mundo, em sentido figurado como se percebe, não fosse tomado por aquela que é uma conhecida reacção “pavloviana” perante o acenar da coisa, provavelmente seria levado a reflectir para lá do óbvio. É o que dá este mar de superficialidade hoje traduzida em expressões da moda como o das “percepções “ que, para lá do que as sensações já traduzem, nos atolam naquela subjectividade que cega a apreensão da realidade para lá do que os sentidos nos dão.
Vem isto a propósito de na maré mediática que rodeia este caso, no carrossel de comentários e espaços informativos, na volúpia de uns para cavalgar a onda e de outros para afastar responsabilidades, ter estado praticamente ausente a iminente aprovação da intenção do Governo em liquidar o visto prévio na generalidade dos concursos e de aumentar significativamente os montantes exigíveis para proceder a ajustes directos, consulta prévia e concurso público. Retirar, na prática, da esfera do controlo externo independente das finanças públicas, neste caso do Tribunal de Contas, a fiscalização da legalidade das despesas públicas é um passo perigoso na vulnerabilização do sistema de prevenção da corrupção.
Posto isto e os factos, o zumbido que se instalou sobre apelos à “seriedade” ou à “transparência” com aquela coerência pronta a desmoronar-se face ao que defendem ou apoiam, a começar na legalização do lobbing, essa moderníssima porta de branqueamento de práticas ilícitas e danosas, deve-nos remeter para aquela asserção filosófica que nos alerta para que «não se trata de fazer ler, mas de fazer perceber». No caso, lêem, ou melhor vêem, mas fingem não perceber. Um género de «assobia para o ar», como se pode ouvir no refrão de uma conhecida e actual canção.




