- Nº 2740 (2026/06/5)
Sofia, 32 anos. Na continuidade do trabalho de doutoramento em engenharia de sistemas, concluído há um par de anos, a engenheira electrotécnica de formação participa no desenvolvimento de modelos de aprendizagem automática, que ajudam a analisar enormes quantidades de dados em segundos. As aplicações vão da saúde à indústria, passando pela protecção civil, entre muitas outras. Não lhe faltam ofertas de trabalho no estrangeiro, mais bem pagas do que por cá. Os seus planos de trabalho e de vida estendem-se para além dos dois anos que lhe restam do contrato a prazo, mas não deixam de ser limitados pela incerteza quanto à possibilidade de renovação desse contrato. Se a renovação vier, sobrará ainda a incerteza sobre o que virá depois de concluído o seu prazo.
Miguel, 44 anos. Há anos que investiga novas terapias genéticas para o tratamento do cancro, numa abordagem inovadora que consiste em recolher células do sistema imunitário do doente, modificá-las geneticamente em laboratório para reconhecer e atacar células tumorais. Terapias que se querem mais eficazes, seguras e acessíveis a mais gente, evitando consequências negativas das terapias convencionais e garantindo remissões duradouras. O caminho que vai da licenciatura e mestrado em bioquímica ao doutoramento na área da imunologia, seguido de pós-doutoramento, serviu a Miguel para coleccionar uma longa – mas nada invulgar – quantidade de bolsas de investigação, entremeadas com um ou outro contrato de trabalho, sempre temporário. Alguns dos planos de futuro que foi idealizando vão sendo adiados ao mesmo ritmo a que se sucedem os contratos precários.
Ana, 39 anos. O doutoramento, já distante, focou-se no desenvolvimento de novos materiais para células solares de elevada eficiência. Apesar de ter sido parcialmente desenvolvido em contexto empresarial, isso não lhe garantiu, na indústria, o emprego como investigadora com que chegou a sonhar. Regressou à universidade e a um centro de referência na sua área. O percurso da cientista ganhou a abrangência ditada pela necessidade de procurar projectos, colaborações e financiamentos disponíveis. Várias bolsas de investigação e alguns contratos a prazo depois, dedica-se à física de plasmas e à pesquisa de novos materiais com aplicação em diversos sectores industriais. Mudou o objecto de estudo, não mudou a sua condição precária – no trabalho, como na vida.
As três histórias acima são ficção. Mas qualquer semelhança com pessoas e factos reais, mais do que possível, é uma certeza.
Estimativas oficiais apontam para a existência de cerca de 8000 bolseiros de investigação e mais de 3000 investigadores doutorados com contratos precários em Portugal, em todas as áreas do conhecimento. É na sua força de trabalho que assenta, em larga medida, o funcionamento do Sistema Científico e Tecnológico Nacional. Trabalham anos a fio, décadas, sem perspectivas de integração na carreira. No caso dos bolseiros, trabalham sem contratos de trabalho, sem acesso a subsídio de desemprego, sem protecção na doença, sem direitos de maternidade e paternidade, sem férias pagas. Procuram respostas – por vezes encontram-nas – para alguns dos maiores desafios do nosso tempo. Mas continuam sem resposta a uma pergunta singela: quando chegará a sua vez de ter um contrato de trabalho e uma carreira estáveis?
PSD, PS, Chega, IL e CDS têm inviabilizado sucessivamente soluções propostas pelo PCP para fazer justiça a estes trabalhadores. Cínicos, de quando em vez, vertem uma lágrima de crocodilo pelos jovens qualificados empurrados para a emigração.
Nenhum país terá um futuro próspero sem investimento na ciência. Não há investimento sério e consequente na ciência sem reconhecer direitos, condições de trabalho e carreiras dignas a quem a faz.
A luta destes trabalhadores não esmorece. A greve geral, a que aderiram tantos investigadores, foi mais uma etapa nessa luta, que continua. A unidade contra o pacote laboral reflecte uma compreensão alargada de que a precariedade deve ser erradicada, não generalizada.