Dia de que “Europa”?

Filipe Diniz

A 9 de Maio celebra-se a Vitória sobre o nazi-fascismo. Nesse dia a UE celebra um “dia da Europa” (deixe-se aqui de lado a fraude de a UE pretender identificar-se como a Europa). Refere-se à proposta de constituição da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (ECSCE). Três notas sobre a coisa.

1. É o pós-guerra. A ECSCE pretende essencialmente articular políticas entre França e RFA. Diz visar ao mesmo tempo a reconstrução de um aparelho produtivo devastado pela guerra e conter o historial de conflito entre França e Alemanha, nomeadamente em torno de regiões produtoras estratégicas. Que economia política presidiria a tal reconstrução? Um dado: em 1945 a França nacionaliza toda a produção de carvão, mas a de aço resiste a essa opção; na Alemanha nazi uma empresa estatal, a Reichswerke, controlara a totalidade desses (e de outros) sectores. Não se vislumbrará na constituição desta “comunidade” o objectivo de afastar quaisquer veleidades “socializantes” e de construir um mecanismo (supranacional) que garanta uma “reconstrução” sob o comando do capital monopolista?. Toda a evolução posterior o terá confirmado.

2. O mapa “europeu” dos seis países integrantes tem uma componente a destacar. Inclui a Argélia, colónia francesa.

3. A linha a Leste de uma RFA constituída à pressa (1949) começa a desenhar a fronteira geográfica do que politicamente constituía então o principal pesadelo do capitalismo “ocidental”: o do prestígio alcançado pela URSS. Pelo papel decisivo assumido na Vitória, mas também por essa vitória assentar num processo de reconstrução e reconversão industrial que apenas a mobilização socialista pudera garantir.

O que a UE celebra contém em germe tudo o que a sua evolução posterior nos diz: serviço ao capital monopolista; preservação da dominação sobre territórios ocupados e nações colonizadas; militante combate (económico, político, militar, e outros) contra qualquer perspectiva de progresso social.

 



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