Confusão e ruído
A morte de Carlos Brito está a ser usada – mais um pretexto – para atacar o PCP. A nota emitida pelo Gabinete de Imprensa do Partido, que, assinalando as conhecidas divergências, destaca o papel de Carlos Brito enquanto lutador antifascista e o seu contributo na construção da democracia, motivou vários escritos. Escritos, aliás, sintomaticamente bastante semelhantes. Em comum têm, por exemplo, o facto de esconderem o apoio de Carlos Brito ao PS em sucessivas eleições. Recorde-se o expresso à candidatura do PS ao PE em 2014 e um dos mais recentes, em 2021, com o envio de uma mensagem vídeo (por não poder estar presente) de apoio àquele partido aquando das eleições legislativas ou o apoio às candidaturas do PS à Câmara Municipal de Alcoutim, terra onde residia, presidindo mesmo à sua Comissão de Honra.
As notícias que consegui acompanhar sobre a sua morte, estranhamente, ignoram todas essa parte do percurso de Carlos Brito, parecendo querer tirar da fotografia um pedaço, de mais de duas décadas e meia da sua história, julgado inconveniente à narrativa que decidiram construir.
De igual modo, ao mesmo tempo que promovem Carlos Brito a “braço direito de Cunhal” omitem que, já com o actual Secretário-Geral, admitiu voltar ao PCP se o PCP abandonasse princípios de funcionamento e base teórica, o marxismo-leninismo, ou seja, se o PCP deixasse de ser o que é.
Carlos Brito teve uma história e um percurso. Inserido no PCP, neste grande colectivo de homens e mulheres com virtudes e defeitos, deu uma reconhecida contribuição para a luta do Partido.
Mas o seu percurso inclui não só a opção de se afastar desse rumo e da força em que se inseriu como ainda de assumir uma atitude de afronta, visando prejudicá-lo, seja no plano público, seja no plano da sua influência social e eleitoral. Devo reconhecer que, tanto as notícias como os escritos referidos são rigorosos ao, na prática, confirmarem que Carlos Brito tinha deixado há muitos anos de ser o que antes fora – comunista.
Alguns, atrevo-me a dizer que soprados pelos mesmos que, quando Carlos Brito era dirigente do PCP, zurziam no que dizia e pensava, achariam que, na hora de sua morte, o PCP devia fazer tábua rasa dessa realidade e pedem ao PCP o que seguramente não pediriam a outros, que promova e valorize quem procurou prejudicá-lo.
Será apenas porque sabem o ruído e a confusão que isso cria?




