As 'linhas vermelhas' do PS

Ângelo Alves

Em Setembro de 2025, na convenção autárquica do PS realizada em Coimbra, José Luís Carneiro afirmou que os candidatos do PS «nunca se colocarão do lado daqueles que querem atacar a democracia e o Estado de direito democrático». Dias antes, numa entrevista, sublinhava: «candidatos nossos que estabeleçam acordos com eleitos do Chega perderão a confiança política do PS.»

Nas últimas eleições autárquicas, a CDU venceu as eleições para a freguesia de Ferreira do Alentejo com maioria relativa. CDU e PS elegeram o mesmo número de membros para a Assembleia de Freguesia, quatro, e o Chega um, por escassas dezenas de votos. Na instalação dos órgãos da freguesia, os eleitos da CDU apresentaram a seguinte proposta: para a Junta de Freguesia, para além da presidente (por Lei o candidato da força mais votada), o tesoureiro seria indicado pelo PS e o secretário pela CDU. Para a Mesa da Assembleia de Freguesia, o PS indicaria dois dos três membros da Mesa, incluindo o presidente da Assembleia de Freguesia.

O PS rejeitou a proposta, e apresentou a seguinte: a CDU teria apenas a presidência da Junta, o PS indicaria o secretário e, pasme-se, o Chega seria o tesoureiro! Ou seja, pela mão do PS, o Chega duplicaria o número de eleitos, passaria a ser responsável pelas finanças da Junta de Freguesia e a CDU ficaria amarrada a um executivo cozinhado entre estes dois partidos. Durante seis meses a CDU insistiu no diálogo, tendo como única condição não aceitar integrar um executivo com o Chega. O PS insistiu no bloqueio e na obstinação de levar o Chega ao colo para a Junta.

Recentemente, a CDU fez aquilo que o PS não teve coragem de fazer: devolveu a palavra ao povo. Todos os seus eleitos e candidatos renunciaram, abrindo caminho a eleições intercalares. Até hoje nem a Federação de Beja do PS nem a sua Direcção Nacional emitiram uma única palavra sobre esta situação. Curiosamente, ou não, na mesma semana o PS aplaudiu na Assembleia da República o presidente do Parlamento ucraniano que persegue e mantém ilegalizadas várias forças democráticas e de esquerda, incluindo da “família política” do PS. O questionamento é óbvio: quais são afinal as “linhas vermelhas” do PS? Têm a ver com um real combate à extrema-direita ou são apenas palavras ocas? O que move afinal o PS? Princípios democráticos ou sede de poder, calculismo político e anticomunismo?

 



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