Venezuela, soberania ferida

Luís Carapinha

O poder bolivariano não colapsou

A agressão dos EUA de 3 de Janeiro e o sequestro do presidente constitucional venezuelano colocam as forças bolivarianas perante a mais grave e complexa situação enfrentada em mais de 25 anos no poder. Atenda-se que o ataque brutal do início do ano não constituiu apenas um acto extremo de terrorismo e pirataria. É o culminar, depois de meses de aparatosa pressão militar, de mais de uma década de uma campanha sem quartel de coerção económica e desestabilização geral, visando estrangular a economia venezuelana e destruir a base social e popular da revolução bolivariana. As medidas que se inserem num bloqueio gradual e sistemático têm início em 2014, após a morte de Chávez, passam pelo decreto de Obama de 2015 que declara a Venezuela uma ameaça à segurança dos EUA e atingem um novo patamar durante a primeira administração Trump, inicialmente com o bloqueio financeiro (2017) e, desde 2019, com a imposição de um embargo petrolífero – acção sem precedentes e, tal como as demais sanções e medidas coercivas, absolutamente ilegal à luz do direito internacional. É também em 2019 que os EUA (e a UE) apostam na mega impostura de Guaidó e na tentativa de total deslegitimação do governo bolivariano. Os objectivos políticos desta guerra fracassaram, mas o estrangulamento económico do país sul-americano teve consequências devastadoras, comparáveis a uma verdadeira guerra, que a agenda cúmplice dos média dominantes pautou por ignorar. A quebra anual do PIB, desde 2014, atingiu o pico em 2020, o ano mais grave da pandemia, com uma contracção de 34%! Em sete anos, a Venezuela perdeu 98% das receitas em divisas, a hiperinflação devorou o salário e poder de compra da população, os serviços públicos, cuja significativa expansão e incremento representara uma das principais conquistas da revolução bolivariana, foram duramente atingidos. As medidas de emergência adoptadas em sintonia com a rede de organização popular, como os CLAP, Comités Locais de Abastecimento e Produção (também alvo de sanções dos EUA), foram cruciais para mitigar a situação de catástrofe social que impeliu milhões de venezuelanos a emigrar. Após cinco anos de recuperação económica, o PIB da Venezuela representa hoje apenas 36% do nível de 2012!

É este o pano de fundo da agressão de 3 de Janeiro, sobre a qual, por cá, o ministro Rangel, em postura obscena de genuflexão, salientou o carácter benigno. A grande frustração dos paladinos da “democracia” é que esta não tenha conduzido à almejada “mudança de regime” e o regresso a Miraflores da oligarquia, na linha de acção de Corina e anteriores personagens da MUD... Apesar de tudo, o imperialismo não atingiu os seus objectivos. O poder não colapsou e a oposição que defende a intervenção externa permanece desacreditada. Certamente, no actual quadro o governo bolivariano foi forçado a cedências dolorosas. Uma nova etapa, em que prossegue a recuperação produtiva, vista como um recuo táctico e uma fase de “paciência estratégica” e acumulação de forças, perante uma administração Trump que dá sinais de desconcerto e corre contra o tempo. É neste contexto de feroz investida dos EUA na América Latina que é importante a solidariedade com a resistência da Venezuela bolivariana e a exigência da libertação do presidente Nicolás Maduro e da deputada Cília Flores e do fim das mais de mil medidas coercivas e sanções extra-territoriais.

 



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