Perante o aumento dos preços, mais do mesmo

Joel Moriano

No passado dia 29 de Abril, o Parlamento Europeu debateu “A Estratégia da UE e a resposta à actual crise no Médio Oriente e às suas repercussões nos preços da energia e na disponibilidade de fertilizantes”. Neste debate interveio a Presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen.

Um terço da sua intervenção não foi sobre a grave situação no Médio Oriente, nem sobre as suas consequências na vida dos povos – nomeadamente pelo aumento do custo de vida –, nem sobre a disponibilidade de fertilizantes e a necessidade de apoio aos agricultores já confrontados com enormes dificuldades. Foi antes dedicado a elogiar os milhares de milhões aprovados para prolongar a guerra que se trava na Ucrânia e o reforço da política de sanções.

Nem uma palavra sobre a paz.

O discurso é revelador da prioridade à corrida aos armamentos e à guerra e da secundarização a que a UE vota os problemas concretos dos trabalhadores e dos povos.

Sobre o Médio Oriente, nada de novo: ausência de condenação da agressão dos EUA e de Israel, incluindo ao Líbano.

Quanto às consequências, a Comissão reconhece impactos gravosos — como o aumento em mais de 27 mil milhões de euros da factura de importação de combustíveis — mas instrumentaliza a chamada “crise energética” para reforçar a oportunidade de negócio: mais integração e aprofundamento do mercado único da energia. Fá-lo ignorando deliberadamente as desastrosas consequências económicas e sociais das políticas de liberalização da energia.

É, porém, na resposta ao aumento dos custos da energia e consequente aumento do custo de vida, que as populações já sentem na pele, que deixa cair a máscara. Ursula von der Leyen considera que foi um erro, na crise anterior, a adopção de medidas universais, defendendo agora apoios apenas para os “mais vulneráveis”.

Esta expressão de aparente (mas falsa) sensibilidade social esconde a recusa pela UE de medidas universais que pudessem travar o aumento dos preços pondo em causa os lucros das multinacionais do sector energético.

Por isso, nem uma palavra sobre tabelamento e controlo dos preços, nem sobre a retoma do controlo público do sector energético para acabar com o faroeste neoliberal em que as multinacionais fixam os preços como querem, arruinando as economias, arruinando as condições de vida. Nem uma palavra sobre a necessidade de apoio aos agricultores e aos produtores industriais, que precisam, agora, de apoio para prosseguir a sua actividade produtiva.

E que ninguém se iluda com a pretensa intenção de taxar os anunciados “lucros excessivos” do sector. Mesmo que essa taxação fosse efectiva ela aplicar-se-ia sobre os lucros que resultam do aumento dos preços, aceitando-o.

Cá continuaremos a denunciar estas políticas e a propor as soluções que, perante a inacção da UE e do Governo, travem a degradação das condições de vida dos povos.

 



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