A civilização

Gustavo Carneiro

Por mais que mantenha ainda adeptos, alguns dos quais com considerável exposição pública (o ministro Paulo Rangel é um deles), começa a ser difícil defender a tese da superioridade moral ou civilizacional do chamado “Ocidente”, expressão em voga para designar o imperialismo norte-americano e seus apêndices.

Desde o início da agressão dos EUA e de Israel contra o Irão, a 28 de Fevereiro, foram já bombardeados mais de 730 centros educativos iranianos, entre escolas, universidades e instituições académicas. Logo no primeiro dia, um míssil destruiu uma escola em Minab, matando cerca de 170 meninas e professoras. Este foi o caso mais conhecido, mas esteve longe de ser o único.

A Organização Mundial de Saúde regista, entre 1 de Março e 4 de Abril, mais de duas dezenas de ataques contra instalações de saúde do Irão. Uma delas foi o Instituto Pasteur, em Teerão, entidade com mais de um século de existência dedicada à investigação biomédica, que ficou totalmente destruída. O mesmo destino tiveram tambémum hospital geral e outro psiquiátrico, bem como uma grande empresa farmacêutica da capital, Teerão. O Crescente Vermelho Iraniano refere 236 instalações de saúde danificadas ou destruídas em sequência dos ataques norte-americanos e israelitas e um grupo de mais de 100 juristas – de várias nacionalidades, mas sediados nos EUA – referem que os ataques aéreos têm atingido escolas, instalações de saúde e habitações.

País de cultura milenar, com quase três dezenas de sítios inscritos na lista de Património Mundial da UNESCO, o Irão viu serem danificados ou destruídos 131 monumentos históricos e museus. Depois do Palácio Golestan, foram também atacados os palácios Chehel Sotoun e Ali Qapu e a mesquita Jameh, todos em Isfahan. A UNESCO já criticou os ataques e garante que informou os países agressores das coordenadas exactas dos referidos sítios, para que fossem poupados. O destino de Tiro, sítio arqueológico fenício localizado no Líbano, igualmente classificado como Património Mundial, também preocupa a agência das Nações Unidas para a Educação e a Cultura.

Num novo balanço das autoridades iranianas, divulgado no sábado, 4, refere-se que 1900 pessoas foram mortas, incluindo muitas crianças, e 20 mil ficaram feridas. Os bombardeamentos de EUA e Israel atingiram ainda 91 mil habitações e 22 mil lojas e armazéns. No Líbano, o saldo é também dramático: 1500 mortos e vastas zonas do país a fazer lembrar a Faixa de Gaza, obra dos mesmos genocidas.

Mas por mais que tudo isto seja monstruoso, nada começou no Irão e no Líbano, nem com Trump e Netanyahu. O imperialismo é tão brutal como sempre foi e vai tão longe quanto consegue. Hiroxima e Nagasáqui, Pyongyang e Hanói, Bagdade e Tripoli, Díli e Santiago do Chile, Ramalá e Gaza, não permitem que nos esqueçamos.



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