8 Maio de 1945

Manuel Gouveia

Em Berlim, à noite, com o seu líder morto, com as suas tropas dizimadas, com o seu país ocupado, 50 milhões de mortos depois de iniciada a guerra que iria estabelecer o Reich dos mil anos, os generais nazis assinavam a capitulação incondicional perante o Exército dos trabalhadores, o glorioso Exército Vermelho da URSS. Era já 9 de Maio em Moscovo, e por isso este é o dia da Vitória.

No mesmo dia 8 de Maio de 1945, em Setif, na então Argélia Francesa, os argelinos aproveitavam as celebrações da vitória para organizar uma manifestação pela independência nacional. São proibidos de levar a bandeira argelina. O primeiro que a empunha, Bouzid Saal, é imediatamente assassinado pela polícia. Perante a revolta que tal crime gerou, mais de 15 mil argelinos são assassinados num novo Maio sangrento. Nos 17 anos seguintes, o Exército francês e os colonos franceses cometerão crimes inomináveis para tentar travar o movimento de libertação da Argélia. A mais de um milhão de argelinos é arrancada a vida na luta pela libertação nacional. Em 1962 o colonialismo francês reconhece a derrota e abandona a Argélia, passando a novas formas de luta e de colonialismo...

O governo burguês da França sentava-se em Nuremberga para julgar os crimes nazis, mas estava ao mesmo tempo a cometer crimes similares na Argélia. E no Vietname. E em todas as suas possessões coloniais, defendendo o seu direito a oprimir outros povos para favorecimento da burguesia nacional francesa. E o mesmo fazia o Reino Unido. E até a Bélgica, que hoje tantos já esqueceram ter cometido dos mais hediondos crimes de guerra. E os EUA, que se preparavam para substituir todos os impérios ocidentais pelo seu próprio império.

O “Ocidente” é um jardim dos horrores, e a guerra a condição da sua sobrevivência. Mas dentro desse “Ocidente”, nascidos da luta de classes, estão os homens e as mulheres e as organizações capazes de travarem o colonialismo e o imperialismo e construir um mundo novo. Porque os povos – o português, como o norte-americano, como o francês – são, antes de mais, vítimas desse mesmo imperialismo que os chama a participar nos crimes do imperialismo.



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