Apresentar resultados… para quê e para quem?

Joel Moriano

As várias décadas do processo de integração capitalista oferecem-nos um catálogo vasto de evidências. Entre elas - certamente não a mais axial, mas a mais oportuna para enredar as linhas desta crónica - encontra-se a metamorfose oportunista da retórica e do léxico institucional na União Europeia (UE). O vocabulário dos seus altos responsáveis não é estático; antes flutua e reconfigura-se, moldado pelos imperativos da propaganda e pela necessidade de revestir com novos nomes os objectivos políticos de sempre.

Nos últimos tempos, a tendência lexical que percorre discursos, propostas, entrevistas, é salpicada, aqui ou ali, com aquilo que designam por “necessidade de apresentar resultados” (“the need to deliver”).

Mas que resultados? E para quem?

Quando a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen insiste na necessidade de a UE “apresentar resultados” na arena internacional, desengane-se quem pense que a paz e a cooperação entre os povos está entre esses resultados. A presidente da Comissão fez estas declarações num contexto em que, sob a capa da chamada “autonomia estratégica”, se procura afirmar o papel da UE como pilar europeu da NATO e manter a submissão aos EUA. Fê-lo em nome daquilo que considera serem os chamados “interesses europeus” no Mundo, que mais não são que os interesses das potências da UE e dos seus grupos económicos e financeiros. Fê-lo no apelo ao reforço de instrumentos de coerção económica e política, da legitimação do desrespeito pelo direito internacional, indissociável de uma perigosa deriva militarista e da economia de guerra.

No plano económico, a mesma semântica é invocada como panaceia para a chamada "competitividade". Aqui, "apresentar resultados" é o código para acelerar a concentração e centralização do capital, para escancarar as portas à mobilização de recursos públicos para o lucro privado, aprofundar o chamado mercado único, nas suas diferentes vertentes, para colocar na roleta da especulação as pensões e poupanças dos trabalhadores, para promover um offshore legal federal que teimam em chamar de “28.º regime jurídico”.

Apresentam-nos estes resultados como se fossem eles uma reivindicação dos povos, ou dos cidadãos como gostam de afirmar, como se fosse um objectivo comum, com benefícios colectivos.

Efectivamente é preciso “apresentar resultados”. É preciso apresentá-los no combate ao aumento do custo de vida, na melhoria das condições de trabalho, nos salários. Precisamos de resultados no aumento do investimento nos serviços públicos, no combate e erradicação da pobreza, no combate ao desemprego e na promoção do pleno emprego. Precisamos de resultados na defesa da paz, da cooperação e da amizade entre os povos, da soberania e desenvolvimento.

Estes, sim, são os resultados que os povos precisam.

 



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