Novos patamares de discriminação
Não há qualquer novidade em dizer que o quadro mediático é profundamente desfavorável ao PCP, tendo, como marca dominante, o silenciamento. É verdade há muito e há elementos que o comprovam: há quase dez anos que o Secretário-Geral do PCP não é entrevistado no principal noticiário da SIC, há seis na TVI e desde 2019 que nenhum dos muitos representantes de partidos que são comentadores fixos nos canais da SIC é do PCP.
Mas também é verdade que já passámos o tempo em que as (justas) razões de queixa se prendiam com as opções de dividir o espaço dos canais generalistas entre PS e PSD (com o acrescento ocasional do CDS). Neste início de 2026, o cenário mediático discriminatório não só se agravou como conhece novos patamares. Uma breve análise das últimas semanas, desde a primeira volta das eleições presidenciais, demonstra-o com clareza.
Na maioria das iniciativas com a participação do Secretário-Geral, Paulo Raimundo, não precisamos de fazer o exercício de analisar a duração, a hora ou o canal em que as peças foram emitidas: na audição e no jantar de 23 de Janeiro, no comício de 24, na sessão pública de 27, no contacto com trabalhadores a 29, na audição a 30, no comício de 31, na deslocação à Marinha Grande dia 5 de Fevereiro, noutra audição a 13, na deslocação a Almada a 14, a Ourém a 16 e ao Bairro Padre Cruz (Lisboa) a 21 – em todas estas acções não houve uma equipa que tivesse feito a cobertura televisiva. Note-se, não se trata já da aplicação de um critério editorial face às declarações prestadas e da forma como são apresentadas, à sua relevância noticiosa, ao equilíbrio de meios face à necessidade de cobertura da actividade de vários partidos ao longo do tempo. Nada disto. O que está patente é a decisão a priori de nem sequer empenhar meios para noticiar a acção do PCP. A isto somam-se outros exemplos, também eles impressivos desta opção, como a ausência em qualquer dos noticiários em canal generalista da conferência de imprensa da última reunião do Comité Central e de várias declarações de Paulo Raimundo e da presidente do Grupo Parlamentar do PCP, Paula Santos, sobre as consequências das intempéries no País. Silenciamento sempre houve, é certo, mas nunca foi tão contrastante com o sem número de horas de emissão que as estações de televisão acumulam diariamente.
Vivemos neste paradoxo: nunca como agora tivemos tantos canais de notícias a emitir 24 horas por dia, mas é preciso recuar muitos anos (numa estimativa arriscada, dir-se-ia que mais de cinquenta) para encontrar um mês de tão profundo silenciamento mediático da acção do PCP. A título de comparação, registe-se que, neste último mês, Cotrim de Figueiredo (que desempenhou o papel de reaccionário bem vestido nas presidenciais) ganhou um espaço de comentário na SIC, Gouveia e Melo soma já duas entrevistas televisivas. Se o argumento para tal discriminação for a proporcionalidade de cada força política, torna-se necessário relembrar um facto aritmético elementar: se o balanço da cobertura mediática do PCP dá zero, tal só se justificaria com a inexistência do mesmo, o que, como se demonstra, está tão longe da realidade como os alinhamentos dos noticiários estão do equilíbrio.




