Derivas multiculturais

Manuel Augusto Araújo

Não devem ser consideradas um acaso estas manifestações de radicalismo pequeno-burguês

Os museus são regidos por um Código Deontológico estabelecido pelo ICOM (Conselho Internacional dos Museus), reconhecido pela UNESCO e que abrange a nível mundial mais de cinco mil museus e seis mil profissionais. O Código Deontológico, um importante instrumento definidor das normas mínimas de conduta e procedimentos técnicos, tem sido sujeito a várias revisões. A que está em curso tem como princípios orientadores que as colecções dos museus públicos e privados passem a ser tratadas e apresentadas ao público com base na sensibilidade de grupos minoritários, definidos como “comunidades”, que até podem vetar a exibição de certas peças ou obras, o que está a provocar uma intensa controvérsia.

Luís Raposo*, com todo o seu conhecimento, experiência e lucidez, sublinha que o que se está a propor subalterniza o papel das colecções nos museus, dá excessiva importância à sensibilidade de grupos particulares de interesse, pelo que «o esboço em discussão não diz que as colecções estão em segundo plano, mas apresenta cinco princípios orientadores, que são a educação, a sociedade, o profissionalismo, as colecções e a governança. Todos com o mesmo peso. E o problema é esse. A aparente igualdade das coisas, quando as coisas não são por natureza iguais, representa uma desigualdade (... ), defendo que os museus são instrumentos sociais. Devem discutir os temas sensíveis e participar em acções que promovam a emancipação cidadã. Mas sem perder de vista que as colecções são a razão de ser dos museus. É o que diferencia o museu das outras instituições de cultura (…), as novas regras, ao não reconhecerem a centralidade das colecções, ou seja, dos objectos e obras que compõem os seus acervos, abrem a porta ao veto das “comunidades”».

Essa é a questão central que deve preocupar tanto os profissionais como todos os cidadãos porque corre-se o risco de, por uma política de causas identitárias, tão na moda nalgumas esquerdas políticas, estar a promover exclusões na base de sentimentos de culpa pela história dos valores da civilização ocidental construídos em brutais violências traumáticas, lateralizando as questões centrais, pelo que a sua base social, política e económica permanecem incólumes, embora surfando as ondas provocadas pelos ventos da história.

Sinais dessas derivas têm-se feito sentir com tonteiras tão tontas (passe o pleonasmo) como na Universidade de Yale estar em marcha a revisão do curso de Arte do Renascimento à Actualidade, porque repararam agora no mais que manifesto facto de os pintores renascentistas serem brancos e masculinos. Um azar que Iago, em vez de intrigar e manipular Otelo, não se tenha dedicado à pintura tendo por modelo Desdémona para concorrer com Ticiano porque, apesar de continuar a ser um representante masculino, pelo menos não era branco. Em Oxford alguns entretêm-se a discutir a Divina Comédia de Dante enquanto obra homofóbica, racista, anti-islamista e antijudaica. Entre outros variados desatinos, os apelos para que Gaugin fosse excluído dos museus, acusado de ser um pedófilo de mentalidade colonialista ou que activistas do Me Too exigem a rectificação de um escândalo que tem passado sem punição: o beijo com que o príncipe acordou Branca de Neve não foi um beijo consentido!

Também o Museu Britânico retirou as referências à Palestina das suas exposições sobre o Médio Oriente antigo.

Estes e outros sucessos excessivos e folclóricos das práticas de torquemadas pós-modernos, apoiados por um muito amplo arco de forças políticas e sociais, de algum modo menorizam as lutas identitárias que lhes são úteis enquanto rasuram as lutas de classes, em que as lutas identitárias deveriam e estão integradas, com o objectivo de nivelar tudo para que a realidade, nos seus termos actuais, seja não só aceitável como mesmo desejável. Não devem ser consideradas um acaso estas manifestações de um radicalismo pequeno-burguês que mais não é do que um mimetismo proletário das camadas burguesas decadentes. Acabam por se tornar topos de divertimento, de chacota, que distraem para desfocar as análises a fundo do que está na sua origem, que deve ser séria e severamente analisado pelo seu poder de inquinar as lutas de esquerda e das forças progressistas que não fazem concessões às elites que detém o poder.

A extrema gravidade é que o Código Deontológico na forja no ICOM possa acabar por ser mais um instrumento, ainda que suavizado, deste estado da arte.

* Luís Raposo foi director do Museu Nacional de Arqueologia (1996-2012) e o primeiro português no conselho executivo mundial do ICOM (2022-2025)

 



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