Três notas a propósito das eleições para Presidente da República
Ventura serve como tropa de choque contra Abril
Lusa
A candidatura de André Ventura foi derrotada
André Ventura foi derrotado: o candidato com apoio de importantes sectores do poder económico, seja no financiamento das suas campanhas e do Chega, seja na presença sistemática nos grandes meios de comunicação social, esmagadoramente alinhados com a agenda sensacionalista. O candidato que nunca falhou no apoio aos grupos económicos, desde o tempo da troika, mas que se diz contra as elites. O candidato que repete as mesmas frases preconceituosas, violentas, racistas, retrógradas, mesmo quando grava vídeos a resgatar gatinhos. Foi esse candidato que afinal foi possível derrotar, que afinal não teve um crescimento imparável.
Esta constatação não pretende desvalorizar os estragos nem os riscos que tem na consciência de milhões de trabalhadores, incluindo jovens, a continuada promoção de André Ventura, do Chega e das concepções que expressam. Pretende sublinhar que é possível derrotar as suas concepções e que existe no País força para isso. O que é preciso é despertá-la e organizá-la.
A candidatura de António Filipe foi indispensável
A candidatura de António Filipe foi imprescindível: uma candidatura patriótica, de esquerda, que colocou os interesses dos trabalhadores no centro, rejeitou a submissão de tudo ao poder económico, afirmou a soberania e a independência de Portugal, defendeu a paz e as liberdades. A candidatura que mais fez para esclarecer sobre os direitos que a Constituição da República consagra e para animar a luta para cumprir as possibilidades que Abril abriu. Que denunciou os interesses das candidaturas reaccionárias, os confessados e os escondidos, mas que também alertou para os perigos dos falsos consensos e dos discursos redondos.
Uma candidatura que enfrentou o silenciamento, a menorização e o preconceito. Uma poderosa operação de manipulação – quem não se lembra das sondagens com empate técnico entre Seguro, Ventura e Cotrim, a ameaçar uma segunda volta em que a escolha fosse entre a frigideira e o lume? – levou a que o resultado ficasse aquém do seu valor e, sobretudo, do que era necessário. Quantos foram os que, vendo em António Filipe o melhor candidato, foram votar com medo desse cenário de segunda volta, concentrando votos em Seguro que se vieram a provar dispensáveis face à distância para Ventura, desmobilizando votos numa alternativa real?
Essa é uma das lições destas eleições: é indispensável que se vote com objectividade, em quem se confia, no projecto que se quer para o País, como estava ao alcance na primeira volta. Não o fazer fragiliza a luta e quem luta. Mas há outra: que teria sido desta campanha sem a candidatura de António Filipe? Que passeio no parque teriam tido as candidaturas reaccionárias? Quem mostraria que é possível estar no debate político com verdade e rigor, falando de forma clara sobre os problemas da maioria, dando esperança e confiança? Sem ela, a afirmação desse projecto de País que a Constituição contém ficaria sem voz, diluída numa amálgama de frases feitas e intenções piedosas, todos juntos contra o Chega, sem projecto e sem diferenças, deixando ainda mais longe e afastados da luta política os interesses de quem trabalha.
Neutralidades e promoções
Ventura serve como tropa de choque num contexto político de promoção de concepções reaccionárias e de revanchismo fascizante contra Abril. E perante ele, PSD, CDS, IL e Cotrim de Figueiredo são neutrais. Ventura apela permanentemente à convergência com o Governo, quer ser “líder da direita”, ao mesmo tempo que o PS objectivamente lhe facilita a operação de se fazer passar por oposição, como fez quando viabilizou o Orçamento do Estado para 2026. O primeiro-ministro apressou-se a clarificar que nada mudou no seu relacionamento com Chega e PS na Assembleia da República, conta com ambos, como conta com a cooperação institucional com o novo presidente. A Cotrim de Figueiredo, que lançou um movimento “cívico-político”, foi entregue um programa de comentário na SIC Notícias ao domingo à noite.
Tal como o PCP disse sempre, a eleição de António José Seguro manteve em Belém um posicionamento político comprometido com o essencial da política que nos trouxe até aqui. Exige-se-lhe que cumpra o juramento que fará na tomada de posse: defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição.
Face a esta situação, complexa, perigosa, é preciso fazer o que se impõe: lutar contra o pacote laboral, por salários e direitos, pelo Serviço Nacional de Saúde e todos os serviços públicos, pela habitação e pela paz. E nessa luta somos, como se viu na greve geral, muitos, com muita força.




