João Canijo: homenagem póstuma

Marta Pinho Alves

Proveitoso seria que os filmes de Canijo fossem vistos, debatidos, escrutinados, investigados


Não era expectável para mim (nem para ninguém, suponho) escrever um título como este. Homenageei João Canijo convidando-o para participar nas minhas aulas e mostrando e estudando os seus filmes nesse mesmo contexto. Canijo replicava com a incansável generosidade e pedagogia de quem conhece bem o seu ofício e é determinado e convicto da sua escrita fílmica, mas não se sente estrela e está aberto a ouvir o questionamento dos outros.

Não houve um único mail que lhe fosse enviado por estudantes a pedir para falar dos seus filmes mais antigos ou recentes que tivesse ficado sem resposta. Gostaria eu que a expressão “homenagem póstuma” demorasse muito a poder ser usada, que Canijo pudesse ter, pelo menos, a longevidade de Manoel de Oliveira, com quem trabalhou, e tinha a expectativa que o díptico Mal Viver/Viver Mal que para tantos, e para o próprio João Canijo, significou uma espécie de renascimento do seu cinema, uma magnum opus, pudesse sinalizar o início de uma nova jornada longa e plena.

O cineasta deixou duas obras totalmente rodadas e em fase de pós-produção que se espera que venham a estrear a breve trecho no cinema. São dois filmes complementares, Encenação e Ucranianas, que partem do teatro, outra das paixões e área de actuação de Canijo, em particular a tragédia grega da Antiguidade Clássica. Quer isto dizer que é possível continuar a acompanhar o realizador porque ainda há trabalho inédito para descobrir e porque, talvez para muitos, a sua obra anterior não tenha sido ainda suficientemente explorada.

Muitos artigos poderão ainda ser escritos sobre cada um dos seus filmes ou sobre o conjunto da sua obra que orientem para a compreensão da estética do autor, dos temas tratados, dos seus métodos e obsessões. Existirão sempre tentativas de inscrição de um autor num determinado cânone, o que se por um lado pode contribuir para iluminar certos aspetos da sua obra, por outro servirá também para reduzir e deixar na obscuridade outros ensaios menos lineares ou pouco perseguidos, caminhos pouco aprofundados ou experimentações falhadas. Proveitoso seria, mais do que erguer-lhe uma estátua que todos veneram, mas ninguém sabe qual a razão (veja-se como se afirma Oliveira o maior cineasta português que já viveu e tão pouco se conhece do seu cinema), que os filmes de Canijo fossem vistos, debatidos, escrutinados, investigados e que isso implicasse também toda a diversidade e perspectivas que conseguem invocar.

Dou o meu contributo para o estudo do autor que, não pretendendo que seja original, é algo que entendo que deve ser evidenciado no trabalho do cineasta: a imensa atenção à realidade portuguesa, à representação dos seus problemas reais e às pessoas comuns. Esta reflexão acompanha a sua obra, que se inicia nos anos 1980, e faz o diagnóstico da sua compreensão da realidade, primeiro enquanto jovem e ao longo do seu amadurecimento como homem e realizador a trabalhar em Portugal, e indicia também as mutações de que o País e a sua mentalidade foram alvo ao longo de todos estes anos. É na exposição do mais íntimo, do mais recôndito, do mais inexprimível e mais transversal que João Canijo coloca a sua tónica. O realizador afasta os panos e deixa-nos espreitar lá para dentro, somos todos da mesma matéria, mesmo que alguns a maquilhem ou cubram de máscaras da forma mais perfeita. Talvez possamos dizer que a fealdade é intrínseca, por vezes mais bem ocultada, mas é própria da natureza humana e instinto de sobrevivência.

Apenas mais uma nota para o lugar das mulheres neste cinema. Por vezes estas surgem individualizadas, muitas vezes em coro, quase sempre são protagonistas. É sobre as mulheres que Canijo resolve falar quase sempre, é a estas que dá o protagonismo – muitas vezes mulheres no papel de mães e os múltiplos exercícios que a assunção deste papel pode convocar –, sem, contudo, as endeusar, mitificar ou absolver das suas contradições. É um cinema realista, em que as mulheres, e por vezes as actrizes, são colocadas perante situações limite, inusitadas, e obrigadas a improvisar, a viver a sua verdade.



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