- Nº 2724 (2026/02/12)
Não houve um único mail que lhe fosse enviado por estudantes a pedir para falar dos seus filmes mais antigos ou recentes que tivesse ficado sem resposta. Gostaria eu que a expressão “homenagem póstuma” demorasse muito a poder ser usada, que Canijo pudesse ter, pelo menos, a longevidade de Manoel de Oliveira, com quem trabalhou, e tinha a expectativa que o díptico Mal Viver/Viver Mal que para tantos, e para o próprio João Canijo, significou uma espécie de renascimento do seu cinema, uma magnum opus, pudesse sinalizar o início de uma nova jornada longa e plena.
O cineasta deixou duas obras totalmente rodadas e em fase de pós-produção que se espera que venham a estrear a breve trecho no cinema. São dois filmes complementares, Encenação e Ucranianas, que partem do teatro, outra das paixões e área de actuação de Canijo, em particular a tragédia grega da Antiguidade Clássica. Quer isto dizer que é possível continuar a acompanhar o realizador porque ainda há trabalho inédito para descobrir e porque, talvez para muitos, a sua obra anterior não tenha sido ainda suficientemente explorada.
Muitos artigos poderão ainda ser escritos sobre cada um dos seus filmes ou sobre o conjunto da sua obra que orientem para a compreensão da estética do autor, dos temas tratados, dos seus métodos e obsessões. Existirão sempre tentativas de inscrição de um autor num determinado cânone, o que se por um lado pode contribuir para iluminar certos aspetos da sua obra, por outro servirá também para reduzir e deixar na obscuridade outros ensaios menos lineares ou pouco perseguidos, caminhos pouco aprofundados ou experimentações falhadas. Proveitoso seria, mais do que erguer-lhe uma estátua que todos veneram, mas ninguém sabe qual a razão (veja-se como se afirma Oliveira o maior cineasta português que já viveu e tão pouco se conhece do seu cinema), que os filmes de Canijo fossem vistos, debatidos, escrutinados, investigados e que isso implicasse também toda a diversidade e perspectivas que conseguem invocar.
Dou o meu contributo para o estudo do autor que, não pretendendo que seja original, é algo que entendo que deve ser evidenciado no trabalho do cineasta: a imensa atenção à realidade portuguesa, à representação dos seus problemas reais e às pessoas comuns. Esta reflexão acompanha a sua obra, que se inicia nos anos 1980, e faz o diagnóstico da sua compreensão da realidade, primeiro enquanto jovem e ao longo do seu amadurecimento como homem e realizador a trabalhar em Portugal, e indicia também as mutações de que o País e a sua mentalidade foram alvo ao longo de todos estes anos. É na exposição do mais íntimo, do mais recôndito, do mais inexprimível e mais transversal que João Canijo coloca a sua tónica. O realizador afasta os panos e deixa-nos espreitar lá para dentro, somos todos da mesma matéria, mesmo que alguns a maquilhem ou cubram de máscaras da forma mais perfeita. Talvez possamos dizer que a fealdade é intrínseca, por vezes mais bem ocultada, mas é própria da natureza humana e instinto de sobrevivência.
Apenas mais uma nota para o lugar das mulheres neste cinema. Por vezes estas surgem individualizadas, muitas vezes em coro, quase sempre são protagonistas. É sobre as mulheres que Canijo resolve falar quase sempre, é a estas que dá o protagonismo – muitas vezes mulheres no papel de mães e os múltiplos exercícios que a assunção deste papel pode convocar –, sem, contudo, as endeusar, mitificar ou absolver das suas contradições. É um cinema realista, em que as mulheres, e por vezes as actrizes, são colocadas perante situações limite, inusitadas, e obrigadas a improvisar, a viver a sua verdade.