O imperialismo, Davos 2026

Albano Nunes

O “trumpismo” constitui um sinal de fraqueza

É provável que a reunião anual do Fórum Económico Mundial, que, como habitualmente, reuniu na cidade alpina da Suíça a fina flor do capitalismo, venha a ser lembrada, quer pela espectacular teatralização de Trump, quer como momento marcante da tumultuosa evolução da situação internacional para um novo patamar de confrontação, pois a corrida aos armamentos (militarização do Ártico e projecto da “Cúpula Dourada” norte-americana) e o apontar da China como o principal inimigo a conter, continuaram a fazer caminho. Mas esta reunião, em que os EUA se fizeram representar pela maior delegação de sempre, ficou também marcada por ter posto em evidência as divergências e contradições que percorrem o centro do sistema capitalista que, agudizadas pela arrogante política da administração Trump, levou dirigentes “europeus” que têm rastejado diante de Trump, ressabiados e desorientados pela ingratidão, a levantar a voz perante as suas ameaças em relação à Gronelândia. Particularmente significativa foi a denúncia da política dos EUA feita por um dos seus mais estreitos aliados, o Canadá, cujo primeiro-ministro, Mark Carney, num discurso amplamente difundido pela comunicação social, veio confirmar um conhecido aforismo de Henry Kissinger: «ser inimigo da América pode ser perigoso, mas ser amigo da América é fatal».
No momento em que se escreve este texto estão em desenvolvimento numerosos processos de incerto desenlace no imediato. Até onde poderá ir a ofensiva norte-americana em relação à América Latina, que depois da criminosa agressão à Venezuela visa abertamente Cuba socialista, além da Colômbia, México e outros países? E quanto à Palestina onde, com um “cessar-fogo” sistematicamente violado pelo governo sionista, prossegue o genocídio do povo palestiniano e o sinistro projecto trumpista de criação de uma “Riviera do Médio Oriente”? E o que é ou se propõe ser o “Conselho de Paz”, tão pomposa como insolitamente formalizado em Davos, que há já quem a veja (!) como alternativa à própria ONU? Após a dramatização do bluff de Trump em relação à Gronelândia, qual vai ser o resultado das “negociações” em curso quanto à anunciada militarização e apropriação da ilha pelos EUA? Leste da Europa, prosseguimento da escalada ou passos em direcção à paz? E em relação ao Irão, há muitas décadas na mira dos EUA e de Israel, para cujas imediações neste preciso momento se dirige uma esquadra norte-americana ameaçadora? E qual o resultado da crise de confiança nas relações transatlânticas? E no que respeita às ambições militaristas do Japão e às suas ameaças em relação a Taiwan? E quanto à União Europeia, o caminho é para a desagregação, como preconizam alguns, ou para um forte reforço de centralização supranacional hegemonizada pela Alemanha, como pretendem outros?
Podiam continuar os exemplos que ilustram a turbulência do tempo que vivemos. Mas bem mais importante é alertar para que é falsa a imagem de poder que a omnipresença de Trump no espaço comunicacional transmite. O “trumpismo”, com a sua agressividade e grotesco narcisismo, constitui afinal uma manifestação de fraqueza, uma tentativa de certo modo desesperada para contrariar a decadência e o declínio dos EUA no plano mundial. E que, como vemos em Minneapolis, mesmo nos EUA há forças para lhe resistir e o derrotar.



Mais artigos de: Opinião

Confissões oportunistas de vassalos transformados em presas

Lusa Com a intensificação da agressão militar, das ameaças belicistas e da imposição de medidas coercivas a diversos países – desde logo aos que aponta como seus “adversários”, mas também aos que designa como “parceiros” ou que...

Registos

A 26 de Janeiro de 1986 realizaram-se as terceiras eleições presidenciais em Portugal. O PCP apoiou Salgado Zenha, “o candidato da democracia”, e traçou como objectivo central a derrota dos que definira como sendo os “candidatos da direita”, Freitas do Amaral e Mário Soares. A passagem destes à segunda volta impôs a...

Falsas neutralidades

No rescaldo da primeira volta das eleições presidenciais, entre leituras e comentários dominantes sobre resultados, disputas de “liderança da direita”, exercícios semânticos acerca do endosso ou não endosso de votos em nome de uma “liberdade de voto” por parte de quem recorreu a tudo para a impedir, teorizações sobre um...

A armadilha que a alternativa dispensa

Quem hoje disser que a demagogia, a mentira, os projectos ou o puro discurso reaccionário estão confinados ao Chega, ou é ingénuo ou está a tentar enganar alguém. Afinal de contas, quer o Chega, quer a IL, não inventaram nada. São, como em tempos alertámos, sucedâneos do PSD e do CDS. Foi aí que fizeram a sua incubação,...

“Irmandade”

Parece até adequado o nome ”Irmandade” atribuído pela PJ à operação de investigação ao grupo fascista 1143. Na meia dúzia de operações contra grupos fascistas nestes 30 anos, desde o assassinato de Alcino Monteiro em 1995, esteve sempre Mário Machado (MM); ainda em 2025, no caso MAL (Movimento Armilar Lusitano), se...