Falsas neutralidades
No rescaldo da primeira volta das eleições presidenciais, entre leituras e comentários dominantes sobre resultados, disputas de “liderança da direita”, exercícios semânticos acerca do endosso ou não endosso de votos em nome de uma “liberdade de voto” por parte de quem recorreu a tudo para a impedir, teorizações sobre um Seguro a “realinhar ao centro” como se alguma vez tivesse pisado terrenos não destros, emerge essa ficção quanto a uma alegada “neutralidade” de Montenegro.
Vendida sobre argumentário diverso – seja justificada pelo cargo governativo que exerce ou pela liderança partidária que detém –, o que com essa expressão se procura iludir é o facto de onde se quer ver neutralidade se deve ler, isso sim, uma decidida opção de comprometimento com o seu objectivo de prosseguir e intensificar a política de direita. Para Montenegro e o seu programa de retrocesso social, a batalha da segunda volta não lhe tira o sono. Provado que está por meses de governação a ausência de rejeição daqueles que são os posicionamentos do partido de Ventura – medida não apenas pela ampla partilha de deliberações em matérias essenciais de favorecimento dos grupos económicos mas mais expressivamente pela procura de adoptar para a política do governo alguns dos temas e concepções mais reaccionárias que aquele assume –, secundarizado que está para Montenegro o que Ventura corporiza de intolerância, mentira e postura antidemocrática, sobra o que de essencial quer preservar de condições para dar andamento ao seu programa de Governo. Esse programa que contou com a cumplicidade do PS para ser viabilizado e que continua a ter garantias de permissividade para ser executado.
Montenegro não vê assim para os projectos que prossegue, problema de maior no desfecho de 8 de Fevereiro, garantida que estará a permanência em Belém de uma postura alinhada com a política de direita e o conforto parlamentar de que precisa. Cabe aos trabalhadores rejeitar e derrotar a expressão mais reaccionária desta disputa e abrir, com a sua luta, caminho a um outro rumo para o País.




