Registos

Gustavo Carneiro

A 26 de Janeiro de 1986 realizaram-se as terceiras eleições presidenciais em Portugal. O PCP apoiou Salgado Zenha, “o candidato da democracia”, e traçou como objectivo central a derrota dos que definira como sendo os “candidatos da direita”, Freitas do Amaral e Mário Soares. A passagem destes à segunda volta impôs a reformulação dos objectivos dos comunistas para essas eleições: reunidos em Congresso extraordinário, organizado em poucos dias, decidem-se pelo voto “contra Freitas do Amaral, votando em Mário Soares”.

Do que foi dito nesse Congresso, ou que dele emanou, é muito o que importa recordar. Na resolução política aprovada lia-se por exemplo que o XI Congresso (extraordinário) mantinha «inteiramente a caracterização da candidatura de Mário Soares feita pelo Partido: uma candidatura de direita, tanto pela actuação e responsabilidade directa de Mário Soares (…) na política e nas ofensivas da reacção». Assim, prosseguia, os comunistas «não têm nem alimentam quaisquer ilusões acerca de M. Soares, das suas concepções e da sua prática política. Têm plena consciência de que, com a eleição de qualquer dos dois candidatos de direita, a defesa da democracia e a solução dos problemas do povo e do País dependerá ainda mais da luta dos trabalhadores, do povo, dos democratas».

Porém, acrescentava, era «conclusão irrecusável que o maior perigo no actual momento decorre da dinâmica ultra-reaccionária, fascizante e agressiva da candidatura de Freitas do Amaral e da possibilidade de este ser eleito Presidente da República», desde logo pela possibilidade de as «altas funções, poderes e competências do Presidente da República poderem vir a ser exercidas por um político cuja prática e programa é do revanchismo do 24 de Abril». Tratava-se de um «perigo real» e o «supremo dever dos democratas» era tudo fazer para o impedir.

Da tribuna do Congresso, o Secretário-Geral, Álvaro Cunhal, lembrou que os comunistas «nunca ficaram de braços cruzados em quaisquer circunstâncias, muito menos nas situações mais difíceis e perigosas», garantindo que naquele acto eleitoral concreto não havia «outra possibilidade de tentar cortar o passo e derrotar Freitas [do Amaral], (…) o perigo maior e iminente que pesa sobre a democracia», que não fosse o voto na outra candidatura, de Mário Soares – sem que isso significasse participar na sua campanha ou mudar uma vírgula que fosse na apreciação do seu programa e da sua prática, uma vez eleito.

Sobre concepções que advogavam que uma vitória de Freitas do Amaral pudesse ser vantajosa para a unidade, o Congresso afirmou ainda que a «unidade dos democratas que defendemos e desejamos não é para lutar pelas liberdades depois delas perdidas, mas para impedir que as liberdades se percam».

Fica o registo histórico.

 



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