Manipulação em quatro pontos
O impacto do tratamento mediático nos resultados e, de forma particular, na forma como decorreu a campanha para as eleições presidenciais do último domingo, confirmou o papel dos órgãos de comunicação social na construção de narrativas, condicionando a definição do sentido de voto, em prejuízo do seu papel social de informar.
1. A pré-campanha. As candidaturas começaram a definir-se ainda em Fevereiro, com o anúncio de Marques Mendes. Desde então, até ao período dos debates televisivos, no final de Novembro, houve uma clara pré-definição de candidaturas “de primeira” e “de segunda”. Mendes, Gouveia e Melo, Seguro e Ventura tiveram longas entrevistas nos principais noticiários da SIC e da TVI, enquanto nos restantes casos estas foram remetidas para os respectivos canais de informação, com uma tremenda desproporção de audiências. Na leitura dos resultados é útil ter isto presente, tanto mais quanto António Filipe teve um espaço na SIC Notícias equivalente à proto-candidatura de Joana Amaral Dias (que não entregou um quarto das assinaturas necessárias junto do Tribunal Constitucional), ou quando o segmento da entrevista de António Filipe à CNN Portugal que passou na TVI foi exclusivamente o requentar da falsificação da posição do PCP sobre a guerra na Ucrânia.
2. A campanha. Os períodos oficiais de campanha impõem especiais obrigações de equilíbrio no tratamento noticioso das várias candidaturas, mas assistimos a violações grosseiras que passaram com a passividade cúmplice da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). A título de exemplo, refira-se a opção da SIC de realizar entrevistas em directo no seu principal jornal, na última semana de campanha, com apenas cinco dos 11 candidatos. Apesar da queixa apresentada pela candidatura de António Filipe, cujos fundamentos foram confirmados pela Comissão Nacional de Eleições, as únicas deliberações da ERC neste ano sobre cobertura noticiosa em período eleitoral referem-se às eleições autárquicas. A alteração à lei que transferiu esta competência da CNE para a ERC continua a produzir os seus efeitos, a inoperância que resulta em impunidade.
3. As sondagens. Nesta campanha repetiu-se a fórmula vencedora da tracking poll. Vencedora porque voltou a resultar, não propriamente por acertar no resultado (ainda que o director-executivo da TVI/CNN tenha cantado vitória nesse particular – pudera, com resultados diferentes a cada dia, alguma coisa haveriam de acertar), mas porque voltou a resultar no condicionamento do sentido de voto.
4. A noite eleitoral. As emissões televisivas das noites eleitorais são sempre muito concorridas, ainda mais com 11 candidatos e com múltiplas declarações num curto espaço de tempo. Mesmo nestas condições difíceis, tanto António Filipe como o Secretário-Geral do PCP fizeram as suas declarações e estiveram longos minutos a responder às questões dos jornalistas que as acompanharam, num momento em que nada de relevante se passava. No entanto, a CNN optou por preencher a emissão nesse período com comentadores em estúdio e ligações em directo a outras sedes de campanha onde nada se passava; a SIC fez uma opção idêntica, guardando apenas uns estonteantes 30 segundos de directo para uma resposta descontextualizada; a RTP ainda fez duas ligações, ainda que curtas e entrecortadas.




