A “estratégia de segurança” dos EUA e a “Europa”
Os EUA procuram ganhar tempo
A recente publicação do documento “Estratégia de Segurança Nacional” (ESN) dos EUA tem suscitado uma torrente de reacções que, notando reais diferenças em relação a documentos anteriores, não só tiram apressadas conclusões como passam ao lado de questões de fundo nomeadamente no que respeita às relações com a “Europa”. A conclusão de muitos analistas e politólogos de que estamos perante o abandono pelos EUA do seu papel de potência hegemónica no plano mundial é desmentida pelo próprio documento que logo na sua primeira frase afirma como objectivo «assegurar que a América continue a ser, nas próximas décadas, o país mais forte, mais rico, mais poderoso e mais bem-sucedido». Do que se trata não é, pois, do abandono das pretensões hegemónicas dos EUA mas do modo de enfrentar, por um lado a decadência do seu sistema económico e social e a crise do seu sistema político e, por outro, inverter o declínio da sua influência mundial contestada por processos de articulação como o BRICS ou a Organização de Cooperação de Xangai e “conter” o desenvolvimento e projecção internacional da China.
Confrontados com as suas próprias limitações e dificuldades, os EUA procuram ganhar tempo. Não é por acaso que enquanto concentram no mar das Caraíbas uma imensa força militar contra a Venezuela, ameacem toda a América Latina com a famigerada “doutrina Monroe”. Trata-se da resposta às lutas populares e às afirmações de soberania e de progresso social que percorrem o continente latino-americano. Também não é por acaso que procurem alcançar compromissos para situações cuja evolução poderia ser-lhes desfavorável, atirando para os ombros de “aliados”, seja na Europa com as potências da NATO, seja no Pacífico, com o Japão ou a Austrália, o maior peso dos encargos de “segurança”. Uma coisa é certa: ao mesmo tempo que manobra para ganhar tempo para se tornar “o país mais forte, mais rico, mais poderoso e mais bem-sucedido”, os EUA empenham-se na corrida aos armamentos impondo compras bilionárias ao seu complexo industrial militar, assim como no estímulo descarado à extrema-direita na Europa e por todo o mundo.
É hoje muito claro que as pretensões hegemónicas norte-americanas resultantes do desaparecimento da URSS e das derrotas do socialismo na Europa (as tais do “fim da história” e da chamada “ordem unipolar”) fracassaram e que, num quadro de grande instabilidade e incerteza, a anunciada ESN trumpista está a tornar visíveis as divergências e contradições que minam o campo imperialista, nomeadamente entre as duas margens do Atlântico, com Trump a humilhar os dirigentes “europeus” e a minar o projecto de uma União Europeia /bloco supranacional concorrente. Aqueles que, como von der Leyen têm rastejado diante das exigências do patrão norte-americano têm a paga que merecem. Obcecados pela “ameaça russa” e empenhados na sabotagem de um caminho de paz e cooperação na Europa, veremos do que ainda serão capazes contra os interesses dos seus povos, apesar de aflitos e desorientados. As frenéticas movimentações políticas em curso e em particular a cimeira da UE de 18/19 de Dezembro darão indicações. Mas o que decidirá será, como aponta o grande sucesso da greve geral do passado dia 11, a luta dos trabalhadores e dos povos.




