Literacia económica aprendida com a barriga

Margarida Botelho

Parecem duas notícias boas, mas pelo menos para as crianças não são.

A primeira: um estudo publicado a semana passada revela que 83% das crianças inquiridas demonstram «elevada literacia económica, contrariando a ideia de que estão alheadas da realidade financeira». 10% sabe que as famílias têm dificuldades para pagar as facturas da energia, quase 21% relata atrasos em rendas e prestações das casas. Sabem o que significa «crise de custo de vida», infelizmente na prática. O coordenador do estudo da Rede Europeia Anti-Pobreza afirma que a amostra sinaliza uma «ansiedade geracional»: «mais de 50% das nossas crianças evidenciaram esta ansiedade, receios com questões económicas, financeiras, e receios com a doença e a morte», como explicou o coordenador do estudo.

A segunda notícia diz que o risco de pobreza diminuiu em 2024 em todos os tipos de agregados familiares, excepto em dois: os monoparentais, em que só entra um salário – na esmagadora maioria dos casos, o da mãe –, onde o risco de pobreza subiu para 35%. E os agregados onde há dois adultos mas também há duas crianças, ou mais. E se com os salários que se praticam em Portugal é difícil viver, especialmente num quadro de brutal aumento do custo de vida dos últimos anos, mais difícil é criar um filho, ou mais, fazendo face às despesas inerentes de alimentação, educação, saúde ou vestuário.

Está generalizado um certo discurso antijuvenil, que classifica os jovens como alheados da realidade, mimados, mal habituados, com uma vida cheia de facilidades. A realidade, que estes estudos expressam, desautoriza essas generalizações. As crianças e os jovens têm na verdade uma vida muito mais dura do que gostamos de pensar. Para a transformar, a greve geral foi um poderoso contributo: é preciso aumentar salários, combater a precariedade e os horários selvagens, lutar pelo desenvolvimento do País. E essa é uma luta para a qual há muitos lutadores, como se viu.



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