Da minha rua vê-se a Greve Geral
“a construção desta greve é trabalhosa e ainda não acabou, mas cresce nos lugares e nas consciências mais surpreendentes”
A minha filha frequenta o 1.º ano do 1.º ciclo numa escola pública. É beneficiária de Acção Social Escolar, escalão B. Entre outras coisas, isso significa um apoio de oito euros para material escolar. Apesar dos livros gratuitos e das fichas também não pagas, gastámos 70 euros em material solicitado pela escola. Cerca de metade dos meninos da mesma sala são beneficiários de ASE, a maioria no escalão A, com pais trabalhadores portugueses, que vivem com um salário magro.
No ATL da minha filha, há meninos que são deixados às 7h30 pelas amas, os pais começaram a trabalhar há muito; outros são recolhidos pelas amas depois das 19h00, outros pais, outros turnos castigadores. Muitos deles vestem diariamente as fardas das fábricas, armazéns de logística e grandes superfícies. Fazem a região funcionar.
Alguns meninos da sala da minha filha muitas vezes não fazem os trabalhos de casa. Ela conta-me que há pais que não chegam a casa a horas de os acompanhar. Não são desinteressados, são pais a gastar demasiada vida a ganhar a vida. São crianças obrigadas a pagar o custo de horários tão longos quanto desregulados. Há dias uma mãe levou o filho de manhã e ficou à espreita muito tempo ao portão. Era quarta-feira e estava de folga. Não a poderia gozar na companhia do filho, como o faria se não trabalhasse ao fim-de-semana.
Na escola da minha filha, há auxiliares que recebem os meninos de pré-escolar ao colo, dão mimos e acolhem o choro, desinfectam feridas e perguntam ao José e à Laura se comeram antes de chegar. Estão cansadas. Dali a pouco estarão a regrar intervalos e almoços, sem elas não há escola, e ganham mal, há muito tempo. Há professores que vêm de muito longe, de outros distritos, fazem muitos quilómetros diários e semanais para ganhar a vida. Eles também estão cansados e sentem-se desvalorizados. Muitos não sabem onde serão colocados no próximo ano. Falta-lhes o dinheiro que é esbanjado em benefícios fiscais aos grupos económicos.
Há meninos cujo lanche e almoço é dado pela escola, a filhos de pais que trabalham a tempo inteiro. Na mesma escola, um dia destes caiu um pedaço do rebordo do telhado. A escola tem óptimos profissionais e instalações interiores, mas o exterior precisa de intervenção urgente, falta o dinheiro, desviado para a guerra.
Quando vou buscar a minha filha de comboio, há sempre ansiedade nos passageiros com a eventualidade de um atraso longo e de os seus filhos ficarem na escola mais tempo do que um horário de trabalho completo. São quase sempre avarias na sinalização ou outras, falta de composições, enfim, falta de investimento. Falta o dinheiro que vai sendo enterrado nas PPP. Quando volto para casa mais tarde, impressionam-me sempre as crianças pequenas que acompanham as mães no regresso do trabalho às 22h30 e 23h00 da noite. Vêm a dormitar, mãe e filhos.
Fui ao centro de saúde e a médica queixava-se de como faltam profissionais no hospital e encerram valências, abrindo ao mesmo tempo uma clínica da Luz Saúde no antigo hospital público. Depois fui ao supermercado e uma senhora reformada, atrás de mim, lamentava-se porque as bananas já não estavam em promoção e que assim só podia levar três. Falámos dos preços, dos salários e das pensões que nunca chegam, e de como pagamos cada vez mais em cada ida às compras. A senhora que lá trabalha disse logo: dia 11 eles vão ver!
construção desta greve é trabalhosa e que ainda não acabou, mas cresce nos lugares e nas consciências mais surpreendentes.
Também uma das mães de um dos grupos de pais se lamentava no dia em que a escola fechou por uma greve: o que havia ela de fazer aos miúdos, mas que até compreendia e que no dia 11, os que mandam vão ver, isto vai parar tudo.
Penso em todas as faltas e carências, em toda a gente cansada e que dá o melhor de si para viver e ser feliz. Tantas vezes sente que a vida é madrasta, abatida pela impotência. Penso nos dois mil milhões de IRC que o governo deu às Galps e Sonaes deste país. Penso em como este pacote laboral agravaria tudo para todas estas pessoas com quem me cruzo. Penso também nas surpresas que tenho tido, como a daqueles dois pais que me pediram para confirmar o dia 11 enquanto apontavam a data no calendário. Não vão faltar à chamada, estarão em greve. Dizem que estamos todos fartos e que não pode ser. Olho para estas ruas cheias de gente apressada e percebo que a construção desta greve é trabalhosa e que ainda não acabou, mas cresce nos lugares e nas consciências mais surpreendentes. Como dizia a administrativa no centro de saúde, ao dirigente sindical que lá vai com regularidade: temos mesmo de dizer basta, não é?




