A Zona de Conforto

Manuel Gouveia

Voltaram as teses passistas (e reaccionárias) da zona de conforto. Desta vez foi o ministro da Economia, referindo-se ao pacote laboral, dizendo que este só ia provocar alguma perda de conforto aos trabalhadores.

A tese da zona de conforto, com o apelo directo à emigração dos jovens portugueses, teve consequências dramáticas para o nosso país. Centenas de milhares de portugueses emigraram para países onde o preço da sua força de trabalho lhes permitia ter uma vida digna. As condições desconfortáveis criadas pela política de direita – baixos salários, alta precariedade, alto custo de vida, principalmente para quem não possui património – só foram capazes de atrair trabalhadores imigrantes com baixas expectativas remuneratórias. Uma realidade logo aproveitada pelas excrescências do sistema para construir uma realidade política assente na mentira, na manipulação, e no medo.

Mas façamos o esforço de olhar à volta. Quem tem em Portugal uma vida confortável? Os trabalhadores? Os 2,5 milhões cujo salário é inferior à renda de um T1 em Lisboa? Os jovens licenciados sem saídas profissionais? Os trabalhadores por conta própria ou os pequenos empresários? Os emigrantes? Não. Os únicos que vemos confortáveis com a actual situação são os grandes detentores de património, e os seus filhotes. Um património a maioria das vezes acumulado através do roubo (às vezes legalizado por leis que lhes são confortáveis) e engrossado pela especulação e o rentismo.

Os comunistas sempre defenderam a necessidade de expropriar os expropriadores do povo. Talvez de facto precisemos passar a defender que a grande burguesia, essa sim, deve ser retirada da sua zona de conforto. A grande burguesia e os que a servem guardando umas migalhas para si (5 milhões aqui, 13 casas ali...). Afinal, é esse conforto que os faz falar de bolos a quem não tem pão arriscando o próprio pescoço.

Que a derrota deste pacote laboral seja o primeiro passo para as muitas lutas e vitórias necessárias para construir uma vida mais confortável para quem vive do trabalho em Portugal.



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