O outro lado da rearrumação global

Luís Carapinha

A crise estrutural do capitalismo continua a marcar o quadro actual

Não é segredo que a situação internacional navega em águas perigosas de mudanças de alcance disruptivo, num processo complexo e arrastado no tempo – em que o velho tarda em morrer e o novo em nascer. A cortina de fumo mediática, aliada à densa neblina das manobras de diversão e contra-informação procuram condicionar e perverter a apreensão do que está efectivamente em causa, mas não podem negar a realidade.

Ora, embora as ameaças reais, a barbárie e bazófia arrogante pretendam sugerir o contrário, a verdade é que o quadro actual permanece centralmente marcado pela crise estrutural do capitalismo e a trajectória de estagnação e decadência das potências do G7, com os EUA à cabeça.

Os primeiros 10 meses do mandato de Trump são pródigos em inegáveis sinais de fraqueza, incoerência e até desespero no seio da dividida classe dirigente da superpotência imperialista. É claro que a besta ferida se torna mais perigosa e imprevisível. Veja-se a situação no Médio Oriente, o branqueamento monstruoso dos crimes de Israel, embebido no mais bafiento espírito neocolonial, ou as ameaças inconcebíveis contra a Venezuela e os povos da América Latina, em novo regurgitar da doutrina Monroe. Não obstante, a emergência reaccionária, a aposta no militarismo, coerção desmedida e tentativa sem rebuço de fazer vingar a lei da selva nas relações internacionais e subverter a Carta da ONU – a fase final do “mundo baseado em regras” que ainda há pouco parecia reunir o gáudio transatlântico na “cruzada das democracias contra as autocracias” –, com todas as ameaças que representam para os povos, não deixa de reflectir um movimento de recuo e procura de reconfiguração e reagrupamento de forças do imperialismo norte-americano. São múltiplas as suas expressões.

A guerra tarifária de Trump foi um fracasso, autêntica “entrada de leão, saída de sendeiro”, como o mostram as tréguas temporárias a que os EUA foram forçados com a China na recente cimeira de presidentes. Agora vem o anúncio discreto da retirada das tarifas adicionais a mais de 200 produtos das exportações do Brasil. Medida que se inseria na chantagem “absoluta” contra os BRICS... O efeito boomerang é sentido na economia estadunidense e na bolsa de milhões de famílias que enfrentam os efeitos da persistência da inflação e do agravamento das despesas com a alimentação, habitação, saúde, educação, etc. Os recentes resultados em eleições locais foram um cartão vermelho às políticas da Casa Branca de favorecimento descarado de uma oligarquia que – segundo o jornal WP – concentra um volume de riqueza sem paralelo desde o final do século XIX. Acresce que, apesar de draconianas medidas de coerção comercial e económica que não poupam os “aliados” mais próximos, as perspectivas de reindustrialização da financeirizada economia dos EUA permanecem uma miragem (o cenário não é mais animador para a UE, como se vê na desindustrialização da Alemanha).

O transcendente descolar do eixo transatlântico – visível no distanciar de posições face à guerra na Ucrânia – é um reflexo de monta do quadro traçado, traduzindo também, não só a realidade adversa no terreno, mas a estratégia de afastar a Rússia da China, em que apostam Trump e os sectores que este corporiza.

 

 



Mais artigos de: Opinião

Da minha rua vê-se a Greve Geral

A minha filha frequenta o 1.º ano do 1.º ciclo numa escola pública. É beneficiária de Acção Social Escolar, escalão B. Entre outras coisas, isso significa um apoio de oito euros para material escolar. Apesar dos livros gratuitos e das fichas também não pagas, gastámos 70 euros em material...

Jovens do vasto mundo

«Prometemos que nos lembraremos desta unidade, forjada neste mês de Novembro de 1945. Não apenas hoje, esta semana ou este ano, mas sempre. Até que tenhamos construído o mundo com que sonhamos e pelo qual lutamos. Comprometemo-nos a construir a unidade da juventude mundial. Todas as raças, todas as cores, todas as...

A TAP e o favor que ainda nos fazem

Nem de propósito. Na semana em que terminou o prazo para a sinalização de interesse por parte dos “candidatos” à privatização da TAP, assistimos a dois acontecimentos que, no mínimo, introduzem grãos na engrenagem e contradições aos que se apressam a destruir empresas e soberania. Nos Açores, vimos a poderosa Ryanair a...

Nem um videozinho, senhores?

No domingo passado, o Jornal de Notícias chamou para primeira página a revelação de que há uma fuga aos impostos de 2,9 milhões de euros por dia em Portugal. No momento em que escrevemos, passaram mais de 48 horas sobre a chocante revelação sem ao menos um videozinho nas redes sociais da IL e do Chega, um cartaz, mesmo...

A Zona de Conforto

Voltaram as teses passistas (e reaccionárias) da zona de conforto. Desta vez foi o ministro da Economia, referindo-se ao pacote laboral, dizendo que este só ia provocar alguma perda de conforto aos trabalhadores. A tese da zona de conforto, com o apelo directo à emigração dos jovens portugueses, teve consequências...