O outro lado da rearrumação global
A crise estrutural do capitalismo continua a marcar o quadro actual
Não é segredo que a situação internacional navega em águas perigosas de mudanças de alcance disruptivo, num processo complexo e arrastado no tempo – em que o velho tarda em morrer e o novo em nascer. A cortina de fumo mediática, aliada à densa neblina das manobras de diversão e contra-informação procuram condicionar e perverter a apreensão do que está efectivamente em causa, mas não podem negar a realidade.
Ora, embora as ameaças reais, a barbárie e bazófia arrogante pretendam sugerir o contrário, a verdade é que o quadro actual permanece centralmente marcado pela crise estrutural do capitalismo e a trajectória de estagnação e decadência das potências do G7, com os EUA à cabeça.
Os primeiros 10 meses do mandato de Trump são pródigos em inegáveis sinais de fraqueza, incoerência e até desespero no seio da dividida classe dirigente da superpotência imperialista. É claro que a besta ferida se torna mais perigosa e imprevisível. Veja-se a situação no Médio Oriente, o branqueamento monstruoso dos crimes de Israel, embebido no mais bafiento espírito neocolonial, ou as ameaças inconcebíveis contra a Venezuela e os povos da América Latina, em novo regurgitar da doutrina Monroe. Não obstante, a emergência reaccionária, a aposta no militarismo, coerção desmedida e tentativa sem rebuço de fazer vingar a lei da selva nas relações internacionais e subverter a Carta da ONU – a fase final do “mundo baseado em regras” que ainda há pouco parecia reunir o gáudio transatlântico na “cruzada das democracias contra as autocracias” –, com todas as ameaças que representam para os povos, não deixa de reflectir um movimento de recuo e procura de reconfiguração e reagrupamento de forças do imperialismo norte-americano. São múltiplas as suas expressões.
A guerra tarifária de Trump foi um fracasso, autêntica “entrada de leão, saída de sendeiro”, como o mostram as tréguas temporárias a que os EUA foram forçados com a China na recente cimeira de presidentes. Agora vem o anúncio discreto da retirada das tarifas adicionais a mais de 200 produtos das exportações do Brasil. Medida que se inseria na chantagem “absoluta” contra os BRICS... O efeito boomerang é sentido na economia estadunidense e na bolsa de milhões de famílias que enfrentam os efeitos da persistência da inflação e do agravamento das despesas com a alimentação, habitação, saúde, educação, etc. Os recentes resultados em eleições locais foram um cartão vermelho às políticas da Casa Branca de favorecimento descarado de uma oligarquia que – segundo o jornal WP – concentra um volume de riqueza sem paralelo desde o final do século XIX. Acresce que, apesar de draconianas medidas de coerção comercial e económica que não poupam os “aliados” mais próximos, as perspectivas de reindustrialização da financeirizada economia dos EUA permanecem uma miragem (o cenário não é mais animador para a UE, como se vê na desindustrialização da Alemanha).
O transcendente descolar do eixo transatlântico – visível no distanciar de posições face à guerra na Ucrânia – é um reflexo de monta do quadro traçado, traduzindo também, não só a realidade adversa no terreno, mas a estratégia de afastar a Rússia da China, em que apostam Trump e os sectores que este corporiza.




