Lay-off da Bosch remete custos para os trabalhadores
É inaceitável a Bosch pretender que os custos da suspensão dos contratos de 2500 trabalhadores, de agora até Abril, sejam pagos pela Segurança Social, protestou o SITE Norte. O PCP questionou o Governo.
Os lucros crescentes dos últimos anos deviam ser usados nesta situação
O recurso ao lay-off , alegando a escassez de componentes para peças electrónicas, foi confirmado pela filial portuguesa da multinacional alemã, a 29 de Outubro, um dia depois de o plano ser revelado na imprensa. O sindicato da FIEQUIMETAL/CGTP-IN, numa nota de imprensa que emitiu nessa quarta-feira, criticou, precisamente, o facto de, tal como os trabalhadores, tomar conhecimento da decisão «após o leite derramado e por via noticiosa externa».
Desde Setembro, «a empresa já avistava uma quebra», admitida na sua informação mensal. Nas últimas semanas, o SITE Norte questionou a administração e a Comissão de Trabalhadores (a quem, por lei, deve ser feita a comunicação da intenção de aplicar um lay-off), estranhando ser vaga a informação disponibilizada sobre paragens pontuais de produção.
Afinal, o «prazo para fiscalizar, contestar ou negociar» os termos do lay-off «correu sem que as partes (administração e CT) comunicassem, a quem quer que fosse, alguma coisa».
Para o sindicato, esta opção pelo secretismo nada tem a ver com a prevenção de alarmismos, mas antes com uma intenção de limitar a resposta dos trabalhadores.
Bosch pode e deve pagar
A empresa «tem todas as condições» para pagar a cem por cento os salários dos cerca de 2500 trabalhadores. O SITE Norte defende que a penalização por essa decisão da multinacional não deve recair sobre os trabalhadores, reduzindo os seus salários e os descontos que vão determinar o valor das suas reformas.
É também inaceitável que a Bosch, um dos maiores exportadores nacionais, pretenda que os custos do lay-off sejam pagos, na sua quase totalidade, pelos próprios trabalhadores – quer pela diminuição dos seus salários, quer através dos 66 por cento que caberão à Segurança Social.
Trata-se de «um grupo económico centenário, com lucros crescentes a cada ano». Para o sindicato, esses lucros acumulados deveriam servir para pagar aos trabalhadores que a empresa decidiu pôr em lay-off.
Os resultados económicos mais recentes foram igualmente citados pelo Grupo Parlamentar do PCP, que no dia 29 dirigiu uma pergunta ao Governo (Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social).
O Partido recordou, ainda, que, em 2024 foram assinados dois contratos com o Estado (AICEP), para projectos da Bosch Car Multimédia com a Universidade do Minho, que garantiriam a criação de 498 postos de trabalho. Aquela unidade de Braga, a maior da Bosch em Portugal, nos termos dos acordos, deverá empregar pelo menos 4069 trabalhadores.
O PCP recordou estimativas de que terão sido despedidas quase 600 pessoas, de 2024 até Setembro último, e acusou a Bosch de proteger os lucros dos accionistas, enquanto transfere para os trabalhadores e para a Segurança Social «os custos das suas opções de gestão».
Do Governo, o Partido pretende que diga se conhece esta intenção de aplicação de lay-off e que medidas preconiza «para garantir que os trabalhadores abrangidos têm os seus direitos salvaguardados e que não são prejudicados nos seus rendimentos». Questiona ainda quantos trabalhadores com vínculos precários ou de empresas que prestam serviços para Bosch em Braga serão afectados, que medidas prevê o Governo para os defender e quais os impactos noutras empresas (como fornecedores).
Há que esclarecer se os contratos via AICEP já estão em vigor e se esses postos de trabalho vão ser afectados.
Depois de perguntar se o Governo tem conhecimento de fundos públicos nacionais ou comunitários a beneficiar a Bosch, o PCP interpela-o, para que diga se considera «razoável» que o grupo recorra à aplicação do lay-off, com o esforço que tal implica para a Segurança Social.
Por fim, o PCP pretende saber «que medidas pensa o Governo vir a tomar junto da UE, face a problemas diversos que estão sinalizados, para proteger o desenvolvimento do sector automóvel em Portugal».
Chamem as multinacionais
As empresas multinacionais do sector automóvel e de componentes devem responder pela instabilidade no fornecimento de semicondutores, defendeu a FIEQUIMETAL, numa nota à comunicação social, em que exigiu intervenção do Governo, para salvaguardar o emprego e demais direitos dos trabalhadores.
«Não se pode aceitar que os dinheiros públicos, designadamente da Segurança Social, sirvam para financiar opções políticas, nas quais os trabalhadores não têm nenhumas responsabilidades», afirma a federação, lembrando que tais apoios «têm servido para transferir milhões e milhões de euros para as multinacionais, que continuam a acumular lucros em cima de lucros». No actual contexto, «estes lucros são “almofada” mais que suficiente para amortecer uma redução dos ganhos e até prejuízos».
A Comissão Europeia é responsabilizada «pelas consequências da sua política de desinvestimento na indústria, incluindo este importante sector», e por ter sido «conivente com a utilização de recursos públicos para resolver problemas provocados pelas suas políticas erradas».




