Refluxo recalibrado
A noite eleitoral das últimas autárquicas foi difícil de engolir para grande parte do complexo mediático que apostou as fichas todas numa retumbante vitória da direita fascizante e reaccionária, em especial do triunfo do Chega, «varrendo» (na terminologia chegana) a CDU do mapa autárquico. No fim da noite, em vez de uma volta a Portugal com Ventura pelas dezenas de municípios conquistados, as televisões viram-se obrigadas a ficar pelo ridículo de acompanhar o seu personagem de eleições rumo ao Entroncamento (como em eleições passadas acompanharam o trajecto de uma ambulância que o transportava na sequência de um dramático episódio de refluxo).
Não esquecemos os panfletos publicados pelo Expresso, sob a capa de “estudos”, em que se prenunciavam a possível conquista de 30 presidências de Câmara para o Chega (com «alta» probabilidade, 15 das quais com probabilidade «altíssima» ou «muito alta») ou o risco de declínio estrutural do PS em 122 concelhos, incluindo 58 em risco «crítico», alguns dos quais em que o PS alcançou maiorias absolutas. Servem estes exemplos, a somar às inefáveis sondagens, para denunciar o recurso a pseudo-ciência para promover agendas escondidas com o rabo de fora.
A operação visava oferecer um resultado esmagador ao partido do Governo e aos que o apoiam nas borlas fiscais e no pacote laboral, mas falhou em alcançar todos os seus objectivos, o que aparentemente baralhou a primeira abordagem mediática aos resultados. Nem o mais hábil demagogo conseguiu tornar credível a narrativa da substituição da CDU pelo Chega quando o «declínio irreversível» esbarrou em 12 presidência da Câmara, quatro das quais novas maiorias e duas delas recuperadas ao fim de mais de 15 anos; nem quando as 60, 30 ou 15 (as expectativas foram sendo meticulosamente geridas) câmaras que penderiam para o Chega não ultrapassaram as três (mais uma que o Nós Cidadãos, força consabidamente pujante na vida política nacional); muito menos quando nem um dos 19 municípios até agora geridos pela CDU passaram para o Chega.
Os prognósticos saíram furados, mas a máquina mediática ao serviço dos de cima foi rápida a recalibrar: veja-se a rápida alteração de critérios para escalonamento das forças políticas – durante mais de 45 anos o número de presidências de câmaras municipais agora substituído, porque à leitura dos resultados daquela força convém a alguns órgãos e a alguns comentadores de serviço, pelo número de votos, ou a a introdução da Antena Aberta (Antena 1) de dia 14, não sobre os resultados das autárquicas, mas sobre o resultado do Chega e o «papel relevante» que pode assumir na gestão autárquica; ou a última edição do Expresso da Meia Noite (SIC Notícias), para o qual foi desconvidada a poucas horas da emissão uma das presidentes de câmara eleita pela CDU para dar lugar a um vereador do Chega, permitindo assim dar mais palco àquela força.
Não há fact-checking que limpe a comunicação social dominante da responsabilidade na consolidação de um ambiente mediático a caminho da putrefacção, em que informação é substituída por manipulação militante.




