De Marrocos a Madagáscar

Carlos Lopes Pereira

Depois de semanas seguidas de protestos nas principais cidades de Marrocos, reprimidos com violência, o governo de Rabat anunciou há dias algumas reformas institucionais contemplando sobretudo «melhorias» nos sectores da educação e da saúde. Para muitos observadores, as medidas visam «apaziguar os ânimos populares», após as manifestações antigovernamentais, cuja repressão causou pelo menos três mortos, centenas de feridos e dezenas de detenções.

Segundo a ministra da Economia e Finanças marroquina, Nadia Fetá, as alterações previstas procuram conseguir «um desenvolvimento nacional que combine justiça social e desenvolvimento territorial integrado» e incluem um aumento de verbas para a educação e a saúde. Abarcam também políticas visando «intensificar os esforços para a inserção dos jovens e das mulheres no mundo laboral».

As manifestações populares, as maiores dos últimos anos no país norte-africano, ocorreram não só na capital, Rabat, mas também em Casablanca, a segunda cidade marroquina e importante centro económico, bem como em outras localidades. Os participantes nos protestos, sobretudo jovens, apoiados por partidos oposicionistas, denunciaram a «corrupção generalizada» no reino ao mesmo tempo que muitas escolas e hospitais carecem da falta de meios e permanecem num «estado lamentável». Rechaçaram o abandono dos serviços públicos e exigiram a criação de emprego. E contestaram o «desperdício» de fundos públicos em actividades preparatórias do campeonato mundial de futebol em 2030 (cuja organização será repartida por Marrocos, Espanha, Portugal, Argentina, Paraguai e Uruguai).

Outro país africano, este insular, no sul do continente, Madagáscar, foi palco de recentes manifestações populares e mudanças institucionais. Desde finais de Setembro, principalmente na capital, Antananarivo, registaram-se protestos nas ruas, convocados por jovens através de uma plataforma na Internet. Os manifestantes começaram por criticar o deficiente funcionamento dos serviços públicos, mas em breve, apesar da repressão policial – que provocou 22 mortos e dezenas de feridos –, alargaram as suas denúncias à corrupção governamental, ao nepotismo, ao aumento do custo de vida, à falta de oportunidades de trabalho e exigiram mudanças.

A situação para o governo tornou-se insustentável quando sectores do exército se juntaram aos manifestantes. O então presidente Andry Rajoelina foi forçado a abandonar o país (num avião militar francês…) e, a 14 de Outubro, as forças armadas tomaram o poder. Três dias depois, o líder do golpe de Estado, coronel Michael Randrianirina, assumiu-se como o novo presidente malgaxe, prometendo a formação de um governo de maioria civil.

De Marrocos a Madagáscar, o que evidenciam as grandes manifestações populares, com muitos jovens na primeira linha, é que os povos africanos, como os de todo o mundo, já não suportam mais a miséria, a pobreza, a exploração a que são submetidos. E mostram a inevitabilidade de, em cada país, em diferentes condições, as forças patrióticas, as forças progressistas, com os trabalhadores, continuarem a resistir ao domínio estrangeiro e a lutar pela consolidação da independência, pelo reforço da soberania nacional, por mais desenvolvimento, pelo progresso social e pela paz.

 



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