Emancipação à distância de um click
As mulheres de “sucesso” são invariavelmente de determinada classe social
A representação social das mulheres nos media decorre de quem detém os meios de comunicação social, porque as representações estão sempre ligadas ao poder, à classe e à ideologia dominantes. Parecem chavões, mas quando é amarelo, grasna e anda como um pato, é capaz de ser um pato.
Trata-se de uma ofensiva que promove a confusão entre publicidade, espectáculo e notícias, em que tudo é transacionável: dados pessoais, ideias, direitos, corpos, que atrasa e corrói consciências, de classe, da condição das mulheres, do lugar dos oprimidos no mundo, no país, no trabalho e na cidade; corrói a consciência da força colectiva e quer reduzir-nos à condição de consumidores e de indivíduos, sós e impotentes.
Assim, as representações das mulheres promovem estereótipos, padrões de beleza, cosmética, dietas, consumo, em que a emancipação da mulher se traduz numa emancipação sexual abstracta, com a invariável hipersexualização e objectificação da mulher, como mercadoria que vende e compra mercadoria.
O tratamento noticioso da violência sobre as mulheres é demasiadas vezes feito em tom desculpabilizador com expressões como crime passional ou conteúdos que potenciam o medo das vítimas e as práticas dos agressores, ou ocultam a exploração da prostituição.
Representações à luz da classe dominante: mulheres de sucesso, “mérito próprio”, competentes empreendedoras, que trabalham fora de horas, aos fins de-semana, prescindem de férias. Mulheres super-mulheres cuja conciliação entre casa, maternidade e trabalho parece harmoniosa e fácil. Um contraste violento com os dias intermináveis de quem trabalha, cuida, executa tarefas domésticas – e a quem pouco sobra de tempo a que chamar seu.
As mulheres de “sucesso” são invariavelmente de determinada classe social. Revistas cor-de-rosa onde se exibem roupas, festas, palacetes e eventos de angariação de assistencialismos. O jet set financeiro, especulativo, impresso em papel couché, onde os ricardos salgados sempre tiveram palco. Elas são a representação social de uma classe, elas vendem sonhos encantados às mulheres que acordam às 4h00 da manhã para limpar os escritórios onde se amassam as fortunas. Alimentam o sonho da princesa.
Há correntes auto-proclamadas de feministas que desenvolvem a sua intervenção por oposição aos homens, afirmando que estar nos conselhos de administração é garantia de igualdade. É certo que é preciso pôr fim ao machismo e ao sexismo, mas transformar a exigência de igualdade numa mera disputa entre mulheres e homens desagrega a necessária luta comum. As mulheres não são uma classe social. Os interesses de Paula Amorim, Meloni ou Von Der Leyen não os mesmos das mulheres que fazem o País funcionar. Protagonistas em empresas, governos e parlamentos de um feminismo com bombas que aposta na indústria da guerra, que despreza os direitos dos povos.
Transformar as desigualdades em tal disputa significa negar as contradições de classe e ocultar que as mulheres da classe dominante aspiram à igualdade para exercer o poder com os homens da sua classe. Mas para as mulheres trabalhadoras exigir igualdade implica ir à raiz da exploração comum.
A desigualdade salarial não é responsabilidade do homem ao meu lado a picar o ponto: penalizar mulheres com prémios de assiduidade ou por não fazerem trabalho fora de horas, porque são elas que maioritariamente acompanham filhos e os filhos doentes, é exploração; o que é preciso é elevar os salários-base para todos os trabalhadores e não chantagem por exercer direitos. Pais e filhos não precisam de creches abertas até à meia-noite, precisam de um horário para poder viver. E disto não nos falam as notícias. Quantas das 24 greves dos trabalhadores das Carnes Nobre, de Rio Maior, maioritariamente mulheres, pelo aumento do salário, fizeram notícia? Elas fazem as salsichas, o fiambre, o presunto ou o bacon que muitas vezes faltam nos pratos do seu próprio jantar porque o salário não chega para aventuras.
A igualdade é indissociável das condições de vida e tem de ter expressão material. Quotas e paridade não reduzem horários, não aumentam salários, não garantem o pão e a habitação necessários para que a vida possa ser mais do que a luta diária pela sobrevivência. Não há emancipação sem tudo isto.
Tudo isto parece avassalador, mas a história de quem todos os dias se levanta corajosamente por aumentos de salários, por mais autocarros no bairro, para que os filhos tenham direito a sonhar e a serem felizes, continua teimosamente a ganhar novos braços. Dia 20 de Setembro sairemos à rua, mostrando que as mulheres e homens deste país não se resignam a pacotes patronais, sabendo que a sua força é capaz de todas as transformações.




