O Ódio

Marta Pinho Alves

Que mundo temos vindo a construir?

Em 1995, o cineasta francês Mathieu Kassovitz assinou La Haine (O Ódio, título em português), filme que contribuiu para uma consagração imediata deste realizador quase estreante que depois não se viria a confirmar com os títulos seguintes. A evocação de La Haine trinta anos após a sua estreia e a razão pela qual continuo a mostrá-lo aos meus estudantes resulta de duas razões. Primeiramente, pelo facto de considerar que o filme não ficou datado e as suas causas e preocupações têm até particular acutilância no momento social e político em que vivemos. Depois, porque assistir recentemente ao filme To a Land Unknown (A Uma Terra Desconhecida, título em português), longa-metragem de 2024, do realizador Mahdi Fleifel1, me fez novamente relembrar o primeiro.

O filme de 1995 conta-nos 24 horas do quotidiano de três rapazes franceses, Vicent, Hubert e Said, de etnias e credos religiosos diversos que partilham a vida no mesmo bairro social. O seu dia-a-dia compõe-se de deambulações para a realização de pequenos esquemas e para a fuga à desconfiança da polícia ou ao desprezo dos media e da população socialmente integrada. Dois deles aceitam a sua condição de subcidadãos e aspiram apenas a viver um dia de cada vez. O terceiro, o rapaz negro, Hubert, é o idealista, visa romper com o ódio contra a diferença e integrar-se na sociedade. Adverte os amigos para um bom comportamento e traz sobre os ombros a responsabilidade de agir de acordo com as regras que lhe são impostas pelos que o vêem como “o outro”, “o estrangeiro”. Hubert não quer ser excluído, procura actuar de acordo com a conduta que lhe é determinada e isso exacerba o seu sentimento de injustiça. Percebe a certa altura a sua ingenuidade, que não há como sair do cerco de discriminação e intolerância, e a sua desilusão leva-o a agir com violência.

Em To a Land Unknown, estamos nos dias de hoje, trinta anos depois. A história decorre na Grécia que nos é apresentada como uma Europa de segunda linha, uma via de entrada para a “verdadeira Europa”, seja lá o que isso for. Dois jovens palestinianos, Chatila e Reda, tal como os protagonistas de La Haine, vivem um quotidiano duro, de pequenos furtos, esquemas e esperanças de um futuro melhor. Vemo-los frequentemente em marcha pelas ruas de Atenas, procurando esquecer as suas condições precárias, a ausência de meios e a discriminação. Fantasiam frequentemente com o restaurante que vão abrir quando conseguirem os meios para aceder a outra cidade europeia. Chatila é o optimista, Resa o mais frágil, mas o destino de ambos está definido desde o primeiro momento. Não há escapatória, é a mixofobia2 que sai sempre vencedora.

A repetição da frase «jusqu’ici tout va bien» (traduzível para «até aqui está tudo bem») que se tornou marca forte do primeiro filme é o mote também no segundo. Em ambos os filmes se prevê o infortúnio no final do trajecto. A história que dá origem à frase já anuncia o desastre: é o que vai dizendo para si um indivíduo enquanto cai de um edifício, sabendo que o destino inevitável é embater violentamente no chão. É a expectativa, ainda que por vezes inconsciente, de quem vive no fio da navalha e agradece a cada dia chegar vivo ao fim da jornada.

Estes filmes não são documentais, mas são amplamente realistas na sua representação. Há trinta anos de distância entre eles. Que mundo temos vindo a construir? O que se passa internacionalmente quando deixamos morrer os que estão longe porque nos parecem estranhos, diferentes de nós? O que se passa à nossa porta quando desprezamos os que se vestem, comportam, comem de forma diferente da nossa? Não, não está tudo bem até aqui. É preciso resistir à queda livre.

1Mahdi Fleifel nasceu no Dubai e é neto de palestinianos expulsos durante a Nakba, em 1948

2Conceito da autoria de Zygmunt Bauman, que significa o medo de nos misturarmos com o outro. O autor frequentemente opô-lo ao conceito de mixofilia

 

 



Mais artigos de: Argumentos

Emancipação à distância de um click

A representação social das mulheres nos media decorre de quem detém os meios de comunicação social, porque as representações estão sempre ligadas ao poder, à classe e à ideologia dominantes. Parecem chavões, mas quando é amarelo, grasna e anda como um pato, é capaz de ser um pato. Trata-se de...