Incêndios são consequência de «política incendiária», privatizadora e desertificadora
Já nem é novidade: ano após ano, o País enfrenta o drama das chamas. No final da Primavera, mais a Norte ou mais a Sul, no Interior ou no Litoral, os portugueses parecem jogar uma autêntica “roleta russa” sobre quem arcará, durante o Verão, com as chamas e o seu rastro de destruição.
Os fogos, como já frisou o Secretário-Geral do PCP em diversas ocasiões, até podem ser inevitáveis, mas o seu descontrolo e as proporções desastrosas que acabam por assumir não são um acaso. São, antes, consequência de décadas de política de direita, perpetrada por governos de PS, PSD e CDS (com o apoio recente, em questões decisivas, de Chega e IL), em que se votou o Interior – e não só – ao abandono, agravou-se o desordenamento do território, desinvestiu-se nos meios de prevenção, vigilância e combate aos fogos, desvalorizou-se os Bombeiros e a sua ligação às populações.
Face a isto, governo após outro pouco mais fazem do que tentar desresponsabilizar-se pela tragédia. Mas nessa “folha em branco” pesa, sobretudo, o tentar fazer da natureza um negócio: da muita “pasta” gerada pela indústria da celulose aos lucros extraordinários dos grandes madeireiros.
A troco destes muitos milhões, vale a pena fechar os olhos ao prejuízo humano e material e à destruição da natureza? Ao trocarem, à vez ou em conjunto, a responsabilidade e “responsabilidade nenhuma” por esta tragédia, PS, PSD e CDS acham que sim. Prova disso foi – e é – a intranquilidade vivida por muitos portugueses ao longo deste Verão.
Rumo desastroso aprofunda-se
Dos especialistas que comentam a catástrofe na imprensa ao agricultor que perdeu o seu rebanho, «é assim todos os anos» deverá ser uma das expressões mais comuns quando se trata de fogos rurais. Apesar de transmitir bem a realidade, também é verdade que o rumo tem sido o de aprofundamento de situações desastrosas.
Este ano arderam já 250 mil hectares no País: para que se tenha noção do que significa este valor, falamos de cerca de 250 mil campos de futebol. Segundo as estatísticas do Sistema Europeu de Informação sobre a Floresta (EFFIS), é um valor que equivale a 3,04 por cento do território nacional – o pior Verão desde 2017. Este ano, de acordo com o relatório provisório do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), só o incêndio de Piódão, em Arganil, que lavrou durante 11 dias na região Centro, apresenta uma área ardida de 64 451 hectares – a maior de sempre em Portugal desde que há registos.
Passaram oito anos desde o desastre de Pedrogão Grande, Castanheira de Pêra e Figueiró dos Vinhos, que vitimou 66 pessoas. No mesmo ano, já em Outubro, outros incêndios atingiram diversos distritos no Norte e Centro do País, destruindo centenas de florestas, 1500 habitações e 500 empresas e vitimando mortalmente cinco dezenas de pessoas. À parte dos prejuízos humanos já verificados, o valor dos estragos deste ano estão ainda por calcular, mas advinham-se avassaladores.
Entre 2017 e este ano, em termos de hectares ardidos, os dados não são mais positivos: 44 mil em 2018; 41 800 em 2019; 65 800 em 2020; 27 100 em 2021; 109 900 em 2022; 34 400 em 2023; e cerca de 147 mil no ano passado.
Promessas vazias não enfrentam incêndios
Paulo Raimundo visitou, na semana passada, no dia 19 (como noticiou a última edição do Avante!), algumas das zonas afectadas pelos incêndios que lavraram no concelho de Ponte da Barca no final do mês passado. A visão da Serra Amarela – na freguesia de Entre Ambos-os-Rios, Ermida e Germil – é desoladora. O verde viçoso das poucas áreas que não foram tocadas pelas chamas contrasta de forma berrante com a que foi queimada, tornando-se mesmo difícil imaginar que também ali abundou a floresta do Gerês.
«O Governo acordou tarde e arrogante para este drama e mediu muito mal a sua dimensão», afirmou o Secretário-Geral em declarações à imprensa no próprio local. «Não é possível impedir que os fogos aconteçam, mas é possível preparar, conservar e impedir que as chamas atinjam esta dimensão», acrescentou.
Já no dia 24, num almoço-comício no Crato, Paulo Raimundo salientou que as medidas apresentadas pelo Governo são apenas «mais do mesmo». «Repetidas e insuficientes, mas por mais insuficientes que sejam, exige-se que sejam cumpridas. É disso que precisa a população, os pequenos produtores agrícolas e os criadores de gado», afirmou.
O País, criticou ainda, «não precisa de novos planos e novos pactos. Se estamos como estamos foi por pactos consecutivos, entre PSD, PS e CDS e aqueles que já lá estavam nas suas barrigas, como o Chega e a IL». «Pacto que ainda no ano passado permitiu cortar 114 milhões de euros de apoios à floresta», acusou.
«Não valem a pena conversas sobre o Interior do País. Enquanto lá não houver condições para as pessoas trabalharem e viverem com serviços públicos e soluções para as suas vidas e enquanto o espaço não for ocupado, não há forma de resolver o problema dos incêndios», garantiu, antes de terminar.
Comissão Permanente da AR
Estava marcada para ontem, já após o fecho do Avante!, a reunião extraordinária da Comissão Permanente da Assembleia da República requerida, no dia 18, pelo Grupo Parlamentar do PCP para debater, com a presença do primeiro-ministro, a grave situação dos incêndios.
O PCP iria chamar à discussão a desvalorização da agricultura familiar e do mundo rural, o desmantelamento das estruturas do Estado e outros serviços públicos, e responsabilizar quem procura fazer negócio com a floresta e os fogos. Questões para as quais já Paula Santos tinha chamado à atenção quando reagiu, no dia 22, às conclusões e medidas apresentadas pelo Conselho de Ministros, reunido no mesmo dia.
O Avante! aprofundará o conteúdo deste debate na próxima semana.




