Naturalmente
A recente cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa terminou num impasse, ao que consta porque alguns dos seus membros, como Portugal, sentiram brotoeja face à hipótese da presidência rotativa da CPLP ser entregue à Guiné Equatorial, devido à violação dos direitos humanos no país. Marcelo Rebelo de Sousa até primou pela ausência no conclave, para não se contagiar. Ora, na mesmíssima cimeira, por acaso dedicada à soberania alimentar, o Governo português impediu que a declaração final fizesse referência à situação de insegurança alimentar (eufemismo para fome) dos palestinianos em Gaza, nomeadamente das crianças.
As preocupações com os direitos humanos têm destas coisas. Que o diga Kaja Kallas, representante especial da UE para o efeito, que há dias apresentou um relatório onde se descreve umas três dezenas de violações do direito internacional por Israel, confirmando a violação dos direitos humanos dos palestinianos. Sem alarme. «O nosso objectivo não é punir», esclareceu Kallas, mas pedir ‘moderação’ a Israel. Até comove, tanto cuidado.
Impressionante é também a displicência, para não lhe chamar outra coisa, com que a UE – que digo eu? – a civilização cristã e ocidental, acolheu a ideia israelo-norte-americana de construir em Rafah, na fronteira com o Egipto, uma maquiavelicamente chamada “cidade humanitária” para concentrar os sobreviventes da actual matança. Depois de décadas de prisão a céu aberto, Israel pretende agora confinar os mais de dois milhões de palestinianos da Faixa de Gaza num campo de concentração reduzido, para os forçar ao exílio ou à morte garantida. «Estamos a demolir cada vez mais casas, eles não têm para onde voltar. O único resultado óbvio será o desejo dos moradores de Gaza de emigrar para fora da Faixa», disse Netanyahu no Knesset, a 11 de Maio. E se não forem a bem…
Nos entretantos, o assassinato de palestinianos virou atracção turística, levando cada vez mais mirones às colinas sobranceiras a Gaza, onde plataformas criadas para o efeito, inclusive equipadas de binóculos, bebidas, sofás, permitem apreciar o espectáculo das bombas do genocídio que não existe.
Em Washington o apoio é total, ou não fosse a administração Trump a obreira do “Alligator Alcatraz” nos pântanos da Flórida, um sistema de campos de concentração projectado para imigrantes “ilegais” e para dissidentes políticos e outros “indesejáveis” marcados pelo sistema.
Nas capitais do mundo ocidental, os terroristas identificam-se pelo apoio à Palestina, e a narrativa sobre o “eixo do mal”, Rússia, China, Irão e Coreia do Norte ateia medos irracionais. Escondido à vista de todos, o verdadeiro inimigo reescreve a História. Lembremos Hillary Clinton, na corrida à Casa Branca: «a opção nuclear não deve ser descartada de forma alguma. Essa tem sido minha posição consistentemente.» (ABC News, 15 de Dezembro de 2015). Depois veio Trump, naturalmente.




