Agrocharlatanice
A fabricação de estereótipos mais ou menos encaixados nas necessidades do capital são um instrumento precioso para promover valores, concepções e opções políticas que não poucas vezes se posicionam nos antípodas do que dizem querer defender. O caso do “jovem empreendedor”, em que cada um pode projectar nessa figura o ideal de sucesso a que aspira, vencendo as dificuldades e subindo a pulso na vida, é disso um exemplo, tal como o é o do “jovem agricultor”, figura igualmente promissora numa sociedade abençoada pelo individualismo, e num sector particularmente envelhecido. É sobre uma dessas figuras de “sucesso” que o Público se debruçou em reportagem no passado domingo e que gostaríamos de aqui falar.
Um projecto de “jovens agricultores” criado em 2011 na Beira Baixa – mais precisamente em Vila Velha de Ródão – que resultou num fracasso quase total. O facto de os promotores da iniciativa não estarem ligados ao sector agrícola – um advogado em Macau, um economista do BCE e um engenheiro na Califórnia – nem tão pouco estarem regularmente no País, não impediu que se mobilizasse cerca de dois milhões de euros de apoios públicos que foram derretidos no “projecto” que então prometia. Segundo o Público, das 18 empresas então constituídas poucas tiveram actividade real, mas só a partir de 2017 é que o IFAP - Instituto de Financiamento de Agricultura e Pescas começou a pedir contas.
O caso, para além de expor fragilidades graves no controlo dos apoios públicos e levantar dúvidas sobre a gestão de fundos comunitários, põe ainda em evidência dois aspectos centrais da política agrícola no nosso País: desde logo as consequências de fragilização e liquidação das estruturas locais e regionais do Ministério da Agricultura com impactos reais no acompanhamento e apoio aos agricultores e no combate à fraude como seria neste caso; mas sobretudo a confirmação de que não há projectos dirigidos aos “jovens agricultores” ou modelo empresarial inovador que impeçam as consequências de uma política estruturalmente orientada para favorecer o grande agro-negócio e desprezar a agricultura familiar, com impactos visíveis incluindo na demografia. Na verdade, o destino deste “projecto”, apesar dos 2 milhões de euros aí injectados (e dos quais alguém terá de prestar contas), não foi diferente do que aconteceu a centenas de milhares de pequenas explorações agrícolas que foram destruídas nos últimos 30 anos em Portugal.
Podem dar as voltas que quiserem, mas não se pode fixar e atrair jovens para a agricultura sem a valorização da agricultura familiar e do mundo rural.




