Águas turvas
O almirante fez-se à água. Habituado a ordens monossilábicas, se e quando chamado a discorrer, naufraga. Seria essa a explicação, mais simples ainda que aquém do que as concepções que ali moram sobreavisam, a que se seria tentado a partir das suas declarações nos Açores. Sempre se poderia dizer que considerar os «Açores a rotunda do Atlântico» poderia ser erro de paralaxe, desconhecimento daquela figura geométrica, ou mera ignorância do código da estrada admitindo que, para obtenção de carta marítima, não se tropece com esse elemento rodoviário.
Uma figura de retórica, uma metáfora ainda que infundada, um deslize inocente, se guardado não estivesse o melhor para quem o há-de comer. O essencial está nessa ideia de «criar uma grande base aeronaval no quadro da NATO», de transformar os Açores no 52.º estado americano, na prática «vender» a região aos EUA. Em matéria de soberania e independência nacionais estamos conversados. Ficamos a saber que dali o que há a esperar é mais quem assuma o papel de procurador de Biden, Trump ou quem lhes suceda, do que alguém com que se conte para afirmar o interesse nacional.
É possível que o almirante vendo o País como diz que vê, “peixe pequeno” num mundo de “tubarões”, se disponha a transformar o País em alimento destes. É opção sua a de se assumir como peixe miúdo, não tem é de arrastar o País e os portugueses para essa condição. Mais do que aludir ao que designa de política antiga invocada para criticar terceiros, o que verdadeiramente o move é o regresso à “política à antiga”, aquela que se manifesta nos traços de autoritarismo, mando, verberação dos partidos ou personagem salvífica, e sobretudo na expressão dos interesses do grande capital.
Como alguém referia, ali mora o prolongamento da epidemia, a exigir prevenção e a recomendar que nos protejamos.




