Helicópteros para quê?

Vasco Cardoso

No meio da tragédia que representa a acção do Governo em conluio com os grupos privados do negócio da doença no desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde, com a sucessão de acontecimentos onde sobressai o encerramento de urgências de pediatria e obstetrícia, ficámos a saber que a empresa a quem o INEM contratou helicópteros por um período de cinco anos, afinal não tem helicópteros… nem pilotos para os operar.

Por entre o passa culpas envolvendo as direcções do SNS e do INEM, e com o Governo a procurar sacudir qualquer responsabilidade, a questão de fundo que está por detrás desta inenarrável situação vai sendo ocultada. Como é possível que o País entregue nas mãos de uma empresa privada – com sede em Malta – uma das missões mais importantes do socorro de doentes em Portugal? Por que razão não tem o País a sua própria frota de helicópteros para responder às suas necessidades?

Infelizmente, esta não é uma situação inédita. Há outros exemplos, como o do Grupo Barraqueiro, que explora a ligação ferroviária entre Setúbal e Lisboa (Fertagus) sem ter um único comboio e sem ter investido um euro na infra-estrutura ferroviária. Ou, se quisermos, a Lone Star, que ainda recentemente amealhou mais de cinco mil milhões de euros com a venda do Novo Banco – na sequência do assalto da gestão privada ao BES – sem ter lá metido um euro. O assalto aos recursos nacionais por parte dos grupos económicos – bem visível na saúde, onde metade do orçamento do SNS vai para os grupos privados – é a marca de água da política do Governo PSD/CDS e daqueles que a viabilizam – Chega, IL e também o PS – e assim vai continuar .

Infelizmente, não temos a expectativa de ver esse debate nos principais órgãos de comunicação social, quanto muito dir-se-á pela enésima vez que “o Estado falhou”. Na verdade, o espaço mediático está cada vez mais capturado por uma agenda reaccionária e neoliberal ao serviço do grande capital que nos procura convencer todos os dias que o Estado é um “empecilho” à nossa liberdade, que o privado é mil vez mais eficiente e barato que o público, que as privatizações ou as PPP são uma necessidade – seja na TAP, seja no SNS –, e um retumbante sinal de progresso.

Diz o ditado que o “segredo é a alma do negócio”. E o segredo mais bem guardado das privatizações é o facto do País não precisar delas para nada.

 



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