O anticomunismo, crónico cúmplice do fascismo

Filipe Diniz

O fascismo é um fenómeno bastante “europeu”. Entre 1921 (Itália e Polónia ) e 1975 (Espanha), existiram pelo menos 14 regimes fascistas na Europa, três em outros continentes. Entre 1926 e 1945, foram acompanhados por movimentos e partidos abertamente fascistas em 12 outros países, seis dos quais europeus.

À derrota do nazi-fascismo seguiu-se em muitos lados o encobrimento da actividade fascista e das suas organizações. Os “aliados ocidentais” reciclaram e reintegraram os seus principais quadros, em especial na NATO e nos serviços secretos. Muitos milhares (dezenas de milhares?) de outros ficaram de reserva. Procriaram.

Hoje estão à vontade até em instituições de que nos anos 20 e 30 não dispunham. No Parlamento Europeu só a “extrema-direita” mais assumida são alguns 111, oriundos de 15 países. E será escusado acrescentar o perfil ideológico de outros, seja no PE ou na Comissão Europeia. Tal como há um século, é no dito “ocidente” que sobretudo permanece o essencial da sua rede de coordenação, financiamento e apoio político e ideológico. E, nunca o esqueçamos, cultural e mediático. Da academia ao audiovisual de massas. Da reescrita da história à violência do mais forte em “inocentes” documentários sobre a “natureza”, à insidiosa presença nos média, aos monstruosos conflitos armados de tantos jogos de computador.

Cúmplices não faltam entre os que alinham pelo anticomunismo. Surgem nos mais sujos truques. Veja-se um caso, como tantos outros: o jornal Libération noticia um manifesto subscrito por intelectuais - entre os quais vários prémios Nobel – contra o fascismo. Coloca uma ilustração em que se destaca Mussolini. E o Mussolini do Libération, juntamente com outro personagem, saúdam de punho fechado, nem mais. É ridículo e imbecil. Mas é também uma forma de cumplicidade com o fascismo, e o nosso quotidiano está cheio delas.

Não é um regresso. Há um século que andam por cá, escondidos ou à vista.

 



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