Quem semeia ventos…

João Frazão

Certamente instalado no seu resultado maior e no colo que sabe que PS, Chega e IL lhe vão dar, o Governo decidiu, na apresentação do Programa do Governo, anunciar uma autêntica guerra aos trabalhadores, abrindo logo diversas frentes de batalha a exigirem toda a atenção e vigilância.

Inspirado, como tudo indica, nas recentes experiências de Milei, na Argentina, e da dupla, agora desfeita, Trump/Musk, nos EUA, e nas mais longínquas mas não esquecidas medidas de má memória da troika, o Governo do PSD/CDS disparou em várias direcções, com o direito à greve à cabeça, mas passando pelos direitos ao subsídio de férias e ao 13.º mês, disfarçado da possibilidade do seu do recebimento em duodécimos, pela flexibilização dos bancos de horas, pela justa aspiração do alargamento do período de férias ou por novos cortes em trabalhadores na Administração Pública, agora mascarados de “avaliação global” e “redistribuição”.

São também estas medidas, sublinhe-se, de que serão co-responsáveis os que decidirem não rejeitar o Programa do Governo quando a Moção de Rejeição do PCP for votada.

É esta a agenda de quem representa no plano político e serve na prática os interesses do capital. É este o modus operandi de quem vê no incremento da exploração, com vista ao aumento da concentração da riqueza na mão de muito poucos, a razão primeira da sua acção política. É este o cominho inverso ao que é indispensável e urgente, num momento em que o aumento do custo de vida não pára de aumentar e em que a crise na habitação assume proporções dramáticas.

Como resultado desta política poderíamos, mesmo que não disponhamos de uma bola de cristal, antecipar três evidentes consequências.

Primeiro, o maior empobrecimento de quem trabalha, ficando ainda mais à mercê da arbitrariedade dos patrões, face ao maior apoio do Governo. Segundo, o prosseguimento da sangria de jovens para o estrangeiro que não se acomodam aos baixos salários que o Governo promove, a que acresce a impossibilidade de conciliarem a vida familiar com o trabalho. E, não menos importante, o recrudescimento da luta dos trabalhadores em defesa dos seus direitos e condições de vida. Essa luta que a vida mostra a cada dia que passa que é sempre o elemento determinante para fazer avançar a vida de todos.

Depois venham cá dizer que é preciso paz social. Quem semeia ventos colhe tempestades.

 



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