A «mais democrática» democracia do mundo

Manuel Rodrigues

Os EUA gabam-se de serem a maior e «mais democrática» democracia do universo. E é tão profunda a convicção que se acham no direito de se arvorar em garantes da democracia no mundo e a ingerir-se na vida interna de outros países, que classificam de oligarquias ou ditaduras.

Para todos os que não respeitem a sua «democrática cartilha», lá estão os EUA a armar-se em «polícias do mundo»: dos boicotes às sanções, das ingerências aos golpes de Estado, dos atentados aos bombardeamentos ou mesmo às invasões, é vasto e «muito persuasivo» o conjunto de punições para impor o seu padrão de democracia.

E, afinal, que padrão é esse de que tanto se orgulham?

Nada como olharmos o actual processo eleitoral nos EUA para ficarmos a perceber (e aprender com tais mestres) como funciona a democracia.

Desde logo, a angariação dos milionários fundos para a campanha: centenas e centenas de milhões de dólares obtidos sobretudo junto de grandes doadores (leia-se: grandes empresas, grupos económicos, multinacionais, ou seja, grande capital) que, como é óbvio, só dão apoios com a garantia de que os eleitos (sejam do Partido Democrata ou do Republicano) defendem escrupulosamente os seus interesses.

Todos os outros partidos (e há muitos) ficam sem meios e, portanto, sem candidatos. São, democraticamente, afastados da corrida às presidenciais.

O grande capital dita as regras, controla o processo, diz quem devem ser os candidatos e, sobretudo, garante à partida, que quer ganhe o candidato dum partido quer o do outro, democraticamente, nenhum deles ousará pôr em causa os seus interesses.

Foi o que se viu, por exemplo na recente e muito democrática Convenção Nacional do Partido Democrata (como já se tinha visto na convenção do democrático Partido Republicano): uma gigantesca operação de show-off em que tudo é escolhido e encenado ao pormenor: desde a escolha da roupa, aos convidados e oradores, aos sorrisos mais ou menos postiços, às claques, às operações sucessivas de branqueamento de imagem, à revelação de apoios- surpresa, e às críticas ao candidato do partido «opositor», para que fique clara a ideia de que, entre os projectos dos dois, há democráticas diferenças de fundo.

Foi assim, por exemplo, que o candidato democrata à vice-presidência, Tim Walz, no meio das críticas a Trump, quando se tratou de falar de si próprio, de entre os méritos pessoais, destacou: «Sou um veterano, um caçador, tenho mais pontaria que a maioria dos republicanos no Congresso e tenho os troféus para o provar».

Num País que tem milhões de armas distribuídas pela população, o povo norte-americano só tem razões para ficar preocupado por, democraticamente, a única escolha que lhe deixam nas mãos ser entre a boa ou má pontaria.

A única escolha, não, porque o povo norte-americano bem sabe que há uma outra, essa sim, democrática: a da luta.

 



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