Mudam-se os tempos, aprofundam-se as vontades

João Pimenta Lopes

Os tempos que correm expõem as crescentes tensões à escala europeia e mundial entre diversos actores, uns procurando contrariar a posição hegemónica dos EUA, estes últimos procurando mantê-la nem que à lei da bala. No quadro da UE, cada vez mais subserviente às políticas de Washington, o tom é de aprofundamento da sua natureza, das suas políticas neoliberais, de concentração de poder (nas suas instituições e potências) e militaristas.

A par da escolha dos altos cargos da UE, o Conselho Europeu adoptou a Agenda Estratégica da UE para 2024-2029. São três os grandes objectivos, que assentam naqueles três grandes pilares de caracterização da UE referidos acima. Sobra hipocrisia, propaganda enviesada numa palete de cores que maquilha os objectivos definidos, procurando legitimá-los perante o povo de cada Estado-Membro.

Não falta o chavão «não deixar ficar ninguém para trás». As famílias portuguesas que se confrontaram com o apertar do cinto por conta dos aumentos das taxas de juro, bem sabem quem não ficou para trás: os bancos na hora de receber. E aí está o apelo a mais «competitividade», em nome da qual se torpedeiam direitos e salários. Aí está o aprofundamento do mercado único, promotor de divergências, desigualdades e dependências, a par de uma dita «soberania europeia», que serve os interesses das maiores potências e dos grupos económicos. Aí estão ditas transições verdes e digitais, aprofundando a liberalização do sector energético na primeira e a mercantilização do enorme manancial de dados dos cidadãos, que alavanca negócios e lucros das multinacionais do sector.

Não falta a cínica caracterização de um projecto de paz, nunca um objectivo verdadeiro desta integração, como se pode constatar na prática. Aí está a Jugoslávia, o Iraque, a Líbia, ou mesmo a Ucrânia, a exemplificar como o caminho de aprofundamento do militarismo da UE se faz num sentido cada vez mais agressivo, e não de paz, que se alavanca em políticas de maior ingerência em assuntos internos de países terceiros, no quadro da sua própria política de procura de controlo de recursos e interesses geoestratégicos.

Como não falta o hipócrita apelo a «valores» que se dizem defender e que constituem elementos fundamentais da democracia. Apelo – curiosamente o menos desenvolvido das três prioridades – que se esboroa com as opções de concentrar ainda mais poder nas instituições da UE e nas grandes potências (corroborado com a intenção de restringir ainda mais as áreas que exigem a unanimidade no Conselho), ou com cada vez mais apertados mecanismos de condicionalidade, que visam limitar as medidas necessárias para responder aos problemas concretos dos povos e de cada Estado-Membro. Um caminho que atenta, ele próprio, contra a democracia.

 

 



Mais artigos de: Europa

Eleições em França: «vontade de mudança»

É real o risco de que venha a ser defraudada a «vontade de mudança» expressa nas urnas e que, no actual quadro de arrumação de forças no parlamento francês, «possa vir a ser assegurada a sobrevivência da política antipopular e reaccionária de Macron», considera o PCP.

Legislativas no Reino Unido

As eleições legislativas no Reino Unido ficaram marcadas pela derrota do Partido Conservador, pondo fim a cerca de 14 anos de governação. O Partido Trabalhista de Keir Starmer alcançou 412 dos 650 assentos na Câmara dos Comuns beneficiando sobretudo do sistema eleitoral no Reino Unido, que distorce grandemente as opções...