Reparação histórica é cooperar e apoiar o desenvolvimento
«Mais um não assunto de que o Chega se serve para ter mais umas horas de tempo de antena nas televisões e desviar a Assembleia da República dos assuntos que realmente preocupam os portugueses», assim avaliou o deputado António Filipe o debate de urgência realizado dia 15 e agendado por aquele partido em torno das chamadas «reparações» às antigas colónias.
O parlamentar comunista não deixou contudo de aproveitar o momento para esclarecer que, pela sua parte, o PCP não acompanha «os termos em que o Presidente da República suscitou a questão das reparações históricas». Não faz sentido levantar um problema desta natureza de forma «tão ligeira e superficial», afirmou, observando que ainda faz menos sentido «uma anunciada intenção de liderança de um processo que nem sequer está colocado pelos governos da ex-colónias portuguesas».
António Filipe não deixou de registar, por outro lado, que no seguimento das declarações do PR, surgiram «manifestações de chauvinismo que, iludindo a verdade histórica, visam dar crédito e reabilitar a mitologia colonial, branquear o fascismo, reescrever a História e apagar e desvalorizar o que a Revolução de Abril representou de libertação dos povos das ex-colónias e do povo português».
Lembrando que cada momento histórico «é marcado por contradições profundas, por grandezas e misérias, por momentos de glória e de tragédia, por factos que condenamos e por factos de que nos orgulhamos», o deputado do PCP tornou claro que «não nos orgulhamos da escravatura e do colonialismo, mas orgulhamos-nos dos avanços civilizacionais, técnicos e científicos ligados às navegações marítimas». Como não nos orgulha, referindo-se a outros factos obscuros do passado, a «dominação de outros povos para benefício das classes dominantes», o fascismo ou os «massacres de Batepa e Wiriamu».
Mas já inquestionáveis motivos de orgulho são também
«a língua portuguesa ser hoje a mais falada do hemisfério sul», os que ousaram resistir e enfrentar a ditadura fascista, ou os militares de Abril que «souberam interpretar as aspirações do povo e pôr fim às guerras coloniais que sacrificaram milhares de vidas».
Entendendo que a Revolução de Abril e as relações de amizade estabelecidas entre o Portugal democrático e os países libertadas do jugo colonial «corresponderam à reparação histórica que se impunha», António Filipe sustentou por fim que é essa reparação «que se impõe prosseguir», num quadro de sempre renovada «cooperação no apoio ao desenvolvimento, sem paternalismos, num quadro de relações de igualdade, de reciprocidade de vantagens, de respeito pelas soberanias, tirando partido da nossa herança multicultural comum».