Os valores de Abril no futuro de Portugal

Octávio Augusto (Membro da Comissão Política)

Está em curso uma intensa operação de branqueamento da ditadura fascista

As comemorações dos 50 anos da Revolução de Abril, com milhares de iniciativas por todo o País, foram uma extraordinária afirmação dos ideais e dos valores de Abril e revestem-se de particular significado no quadro político actual, representando uma resposta à ofensiva ideológica há muito levada a cabo.

Houve quem as tenha tentado desvalorizar, enquanto outros se dedicaram a silenciamentos, deturpações, mentiras e deliberadas falsificações da história, aliados a uma não menos intensa operação de branqueamento da ditadura fascista, apagando ao mesmo tempo o papel dos comunistas e do seu Partido na resistência ao fascismo e na construção e defesa do regime democrático.

A borracha dos novos censores e dos seus serventuários instalados nos cadeirões da reescrita da história e nas poltronas da comunicação social apagou muitos dos mais importantes construtores de Abril – de que é exemplo gritante o desaparecimento do General Vasco Gonçalves, primeiro-ministro de quatro governos provisórios, relevando Spínola e omitindo o seu papel em sucessivos golpes contra-revolucionários (Julho e Setembro de 1974, 11 de Março de 1975) e na rede terrorista que assolou o País entre Maio de 1975 e Abril de 1977.

Dessa época relevam-se organizações terroristas como o ELP e o MDLP, a Flama (na Madeira) e a FLA (nos Açores). Apoiadas pela CIA e demais serviços secretos estrangeiros, ex-pides, empresários, parte significativa da igreja, militares, quadros, dirigentes e homens de mão do PSD e do CDS, entre outros, coadjuvados por gente do MRPP, da AOC, do pcp-ml, entre outros, constituíram a santa aliança que não se eximiu de recorrer ao terrorismo para abrir caminho à contra-revolução.

Das 566 acções registadas (310 à bomba, 136 assaltos, 58 incêndios, 36 espancamentos, 16 atentados a tiro, 10 apedrejamentos), 160 tiveram como alvo o PCP.

José Freire Antunes (antigo deputado do PSD e adjunto de Cavaco Silva entre 1988 e 1993) num seu livro O Segredo do 25 de Novembro diz que o «incêndio e a perseguição tornaram-se pão nosso de cada dia. Multidões em fúria tomavam de assalto as sedes do Partido Comunista e de outros partidos de esquerda. O comunismo é a oitava praga». Mário Soares nunca escondeu a sua admiração e gratidão por Spínola: enquanto Presidente da República fez-se acompanhar em Belém por destacadas figuras do spinolismo, como Almeida Bruno, Manuel Monge e o general Azeredo. Spínola viria a ser agraciado com as estrelas de Marechal e foi ainda premiado com a Presidência das ordens Honoríficas.

O mesmo Mário Soares que caracterizou por diversas vezes a vaga terrorista de «rejeições populares» do comunismo, «indignação genuína contra a comunização». Sobre o papel da Igreja e as suas ligações ao MDLP: «sinceramente, acho que não.» Afirmações corroboradas por Carlucci: Foi quando o «povo do Norte começou a resistir à influência do Partido Comunista que teve início a reviravolta»; «foi espontâneo, ninguém esteve por detrás»…

Com afirmava Álvaro Cunhal, em Agosto de 1975, «o anticomunismo dirige-se preferencialmente contra o PCP, mas visa a liquidação das liberdades não apenas dos comunistas, mas de todo o povo português (…) uma vez mais são os que acusam os comunistas de serem contra as liberdades que de facto as liquidam. E são os comunistas que corajosamente se erguem em defesa das liberdades». Estas palavras bem poderiam ser escritas hoje!

50 anos depois de Abril, importa valorizar o papel da luta de massas e do PCP na luta contra a ditadura fascista, no processo revolucionário e na sua defesa e na aprovação da Constituição. 50 anos depois de Abril, o PCP continua a destacar-se como a força mais empenhada e coerente na defesa dos valores de Abril e da sua projecção no futuro de Portugal.

 



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