Deus, Pátria e Família
«Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e a sua História; não discutimos a autoridade e o seu prestígio; não discutimos a Família e a sua moral; não discutimos a glória do trabalho e o seu dever. (…) Mas o homem na vida doméstica, no trabalho, na Nação, é obrigado a organizar a sua ordem. Devido ao desequilíbrio do espírito humano, a ordem não é espontânea: é preciso que alguém mande em benefício de todos e que se procure para mandar quem possa mandar melhor. (…)»
A essência do lema que havia de caracterizar o regime facista de Salazar – Deus, Pátria e Família – foi apresentada em Braga, a 28 de Maio de 1936, aniversário do golpe de Estado que derrubou a Primeira República. Mais de três décadas depois, o 25 de Abril pôs fim à ditadura e em menos de um século Portugal tornou-se num país que pode orgulhar-se de ter uma das legislações mais avançadas do mundo em matéria de igualdade de género, direito ao divórcio e ao aborto, de não descriminação em todos os domínios.
Os fascistas desapareceram, se é que existiram: saíram de circulação, mudaram de discurso, esconderam-se debaixo das pedras, reciclaram-se.
Em Novembro de 2021, no encerramento do IV Congresso do Chega, André Ventura, ajoelhou em palco, fez a saudação nazi e recuperou o lema do ditador, com a referência ao Trabalho, a mostrar conhecer o texto.
Três anos depois, 22 personalidades, bem conhecidas pela presença assídua nos governos, Assembleia da República e canais de televisão, dão à estampa o livro Identidade e Família, que Passos Coelho apresentou esta semana por representar os «valores seguros quanto aos aspectos relacionados com esta problemática da família».
Anátema do que considera ser a «destruição da família tradicional» e a «imposição da ideologia de género», a obra desanca na escola pública, condena o direito ao aborto e ao divórcio, associa a disforia de género a «patologias psiquiátricas», põe em causa a «convicção» de que as «senhoras» foram «sucessivamente oprimidas e desprezadas», repudia o casamento e a adopção por casais do mesmo sexo.
Coordenado por Bagão Félix, Paulo Otero, Pedro Afonso e Victor Gil, «pais» do Movimento Acção e Ética, que visa «procurar influenciar (...) as políticas públicas», o livro tem a benção do ex-cardeal patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, e do padre Vasco Pinto de Magalhães, da Companhia de Jesus. Na sinopse da editora, lê-se, a propósito família, que há um «conjunto de princípios éticos que não são negociáveis, mas sim intemporais». Salazar não diria melhor. Fascistas, xenófobos, machistas, misógenos aplaudem. Afinal existem. Chefe já têm – é preciso que alguém mande. Esperam «influenciar o novo ciclo político» para impor o regresso ao passado, fazendo tábua rasa da realidade. É a moral fascista no seu esplendor.