Pela verdade, custe o que custar

Albano Nunes

É pre­ciso calar os tam­bores da guerra antes que seja tarde de­mais

Os si­nis­tros acordes dos tam­bores da guerra con­ti­nuam a soar, e cada vez mais alto. A cor­rida aos ar­ma­mentos e a cons­trução de uma «eco­nomia de guerra», em que a NATO e a União Eu­ro­peia estão em­pe­nhadas, chegam a ser apre­sen­tadas como «opor­tu­ni­dade a não perder» para mo­der­nizar e de­sen­volver o País, e aqueles que vo­taram o fim do SMO para afastar as Forças Ar­madas do povo apa­recem su­bi­ta­mente a de­fendê-lo, não para cum­prir as mis­sões de so­be­rania e paz que a Cons­ti­tuição atribui às FFAA, mas para com­pro­meter ainda mais Por­tugal na es­tra­tégia agres­siva do im­pe­ri­a­lismo.

Claro que nunca de­vemos tomar à letra as cam­pa­nhas de ma­ni­pu­lação e con­di­ci­o­na­mento ide­o­ló­gico com que a classe do­mi­nante, se­guindo o en­si­na­mento nazi de Go­eb­bels, pre­tende trans­formar a men­tira em in­dis­cu­tível «ver­dade». Mas os pe­rigos com que Por­tugal está con­fron­tado são bem reais e tanto mais que, mal tomou posse, o Go­verno da di­reita anun­ciou querer ir ainda mais longe que o go­verno do PS na sub­missão de Por­tugal à NATO e à União Eu­ro­peia. Temos de in­ten­si­ficar a luta para o im­pedir.

Os fal­cões da guerra estão a pro­curar, por todos os meios, in­culcar nas massas tra­ba­lha­doras, o fan­tasma da «ameaça de Mos­covo» e a pa­ra­nóia de uma «Eu­ropa em pe­rigo!»; é ne­ces­sário des­mas­carar um tal alar­mismo que, além do mais, visa iludir os reais pro­blemas das massas e travar a sua luta contra a ex­plo­ração ca­pi­ta­lista e contra o cres­cente ataque às li­ber­dades de­mo­crá­ticas.

Se a se­gu­rança dos povos da Eu­ropa está em pe­rigo, porque é que as grandes po­tên­cias ca­pi­ta­listas es­con­juram a pa­lavra paz e re­cusam so­lu­ções po­lí­ticas? Porque é que, de­pois de fra­cas­sada a ope­ração «G8» (G7+Rússia), re­jei­taram e re­jeitam rei­te­radas pro­postas sobre a Se­gu­rança na Eu­ropa ao mesmo tempo que, sem ver­gonha, tentam impor a nar­ra­tiva da «ameaça russa» como a «versão pós-guerra fria» da «ameaça so­vié­tica»? Porque fingem ig­norar que a guerra na Ucrânia tem atrás de si um ro­sário de vi­o­la­ções de com­pro­missos e acordos (a co­meçar pelo de não alargar a NATO «nem mais um cen­tí­metro» após a ab­sorção da RDA pela RFA)? Porque li­qui­daram a neu­tra­li­dade de países há sé­culos neu­trais como a Suécia, ou como a Fin­lândia, o país an­fi­trião da his­tó­rica Con­fe­rência de Hel­sín­quia para a Paz e a Co­o­pe­ração na Eu­ropa de 1975, em que já par­ti­cipou o Por­tugal de Abril, ati­rando para a sar­jeta da his­tória a par­ti­ci­pação do fas­cismo por­tu­guês na fun­dação da NATO? E porque é que, na sequência de su­ces­sivos alar­ga­mentos, a NATO (dita do «Atlân­tico Norte») está a es­tender os seus ten­tá­culos à Ásia-Pa­cí­fico com o ac­tivo em­penho do mi­li­ta­rismo ni­pó­nico, apesar da forte opo­sição do povo ja­ponês, que não es­queceu o ho­lo­causto de Hi­ro­xima e Na­ga­sáqui? E porque é que, na fre­né­tica mul­ti­pli­cação de «ci­meiras» do campo im­pe­ri­a­lista (NATO, UE, G7, etc.), não há pra­ti­ca­mente ne­nhuma que, de um ou outro modo, não acabe por apontar ba­te­rias contra a Re­pú­blica Po­pular da China?

É pre­ciso calar os tam­bores da guerra antes que seja tarde de­mais. Ca­minho di­fícil, mas que é ne­ces­sário per­correr. Sem sim­pli­fi­ca­ções re­du­toras, mas apon­tando com co­ragem o prin­cipal ini­migo da paz, o im­pe­ri­a­lismo, e de­fen­dendo a ver­dade his­tó­rica, custe o que custar.

 



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