Investidas

Jorge Cordeiro

O governo português foi anunciar a fabulosa verba de 5 milhões de euros à Conferência do Clima. A projecção dada ao altruísmo ambiental estará longe de corresponder à dimensão do problema.

Não se erga já um coro de indignados pela ingratidão. Sempre se poderia olhar para a decisão com base na proverbial resignação de «quem dá o que pode a mais não é obrigado». Mas é aí que bate o ponto! Se atendermos às centenas de milhões que directa e indirectamente já foram apostados para prolongar a guerra no Leste da Europa talvez se acrescente ao manancial de ditos populares um «quem dá ao que não deve, para mais e melhor não tem».

A expressão de devoção ambiental fenece assim perante o valor do apoio à guerra. Mesmo que se saiba que para lá dos recursos imensos postos ao serviço da indústria da morte e da fonte inesgotável de lucro que gera, as guerras são, em si mesmo, para lá de destruição de vidas um factor maior de degradação ambiental. Constatação que não demoverá os que, como os EUA e a União Europeia, tentam impor o seu domínio sobre povos e recursos, e que mesmo a propósito de eventos como o que decorre no Dubai olham para eles como oportunidade para submeter os interesses de outros ao que lhes interessa. Não será por acaso que mais do que as doações para o Fundo de perdas e danos o que se joga é a decisão sobre o poder de o gerir e ao serviço de quem.

Na mira das principais capitalistas não é no planeta que as preocupações se centram. Por aí se continuarão a preencher espaços noticiosos sobre a Conferência que agora decorre acompanhados do que se vai conhecendo – dito com mais rigor, do que nos querem dar a conhecer – sobre as guerras que se querem prolongar. Narradas com a mesma parcialidade e cinismo que preenchem comentários e reportagens, ditadas a partir de quem domina a informação, relativiza o valor da vida ou instrumentaliza conceitos como o que se ouviu de supostos jornalistas transformando invasões hediondas de hospitais por Israel em Gaza em meras investidas. Pena é que não há quem lhes pergunte mil e uma vezes «mas é ou não invasão»?




Mais artigos de: Opinião

À direita da esquerda

Haverá poucos conceitos tão debatidos quanto os de esquerda e direita (politicamente falando, claro). Surgidos na Revolução Francesa, em torno da atitude face ao rei e à religião, e do lugar ocupado por cada uma das facções na Assembleia Nacional, enquadram deste então ideologias, partidos e movimentos. A separá-los...

Currículo tenebroso

O massacre do povo palestiniano continua. Depois da chamada pausa humanitária e da troca de detidos, Israel avança implacavelmente para o Sul da Faixa de Gaza, encurralando mais de 2 milhões de palestinianos e destruindo tudo… e todos. Uma atroz agressão filmada e projectada em directo que nos sangra os olhos e o coração...

Tempo de «sondagens»

As sondagens «não servem para prever resultados eleitorais», embora possam ser úteis na avaliação de tendências várias num momento concreto, diferente das eleições. As sondagens à «boca das urnas» são mais verdadeiras, mas imprestáveis após a noite eleitoral. Vale lembrar que uma sondagem eleitoral séria resulta na...

Ideologia e genética

Para os fascistas de há um século (face aos actuais, exprimiam-se em geral com mais franqueza), o «outro», de outra «raça», era não só inferior enquanto espécie mas também ideologicamente oposto. Estar-lhe-ia na massa do sangue. Quem leia ideólogos da época depara-se com expressões como «comunismo asiático», «conspiração...