Investidas
O governo português foi anunciar a fabulosa verba de 5 milhões de euros à Conferência do Clima. A projecção dada ao altruísmo ambiental estará longe de corresponder à dimensão do problema.
Não se erga já um coro de indignados pela ingratidão. Sempre se poderia olhar para a decisão com base na proverbial resignação de «quem dá o que pode a mais não é obrigado». Mas é aí que bate o ponto! Se atendermos às centenas de milhões que directa e indirectamente já foram apostados para prolongar a guerra no Leste da Europa talvez se acrescente ao manancial de ditos populares um «quem dá ao que não deve, para mais e melhor não tem».
A expressão de devoção ambiental fenece assim perante o valor do apoio à guerra. Mesmo que se saiba que para lá dos recursos imensos postos ao serviço da indústria da morte e da fonte inesgotável de lucro que gera, as guerras são, em si mesmo, para lá de destruição de vidas um factor maior de degradação ambiental. Constatação que não demoverá os que, como os EUA e a União Europeia, tentam impor o seu domínio sobre povos e recursos, e que mesmo a propósito de eventos como o que decorre no Dubai olham para eles como oportunidade para submeter os interesses de outros ao que lhes interessa. Não será por acaso que mais do que as doações para o Fundo de perdas e danos o que se joga é a decisão sobre o poder de o gerir e ao serviço de quem.
Na mira das principais capitalistas não é no planeta que as preocupações se centram. Por aí se continuarão a preencher espaços noticiosos sobre a Conferência que agora decorre acompanhados do que se vai conhecendo – dito com mais rigor, do que nos querem dar a conhecer – sobre as guerras que se querem prolongar. Narradas com a mesma parcialidade e cinismo que preenchem comentários e reportagens, ditadas a partir de quem domina a informação, relativiza o valor da vida ou instrumentaliza conceitos como o que se ouviu de supostos jornalistas transformando invasões hediondas de hospitais por Israel em Gaza em meras investidas. Pena é que não há quem lhes pergunte mil e uma vezes «mas é ou não invasão»?