Os mercados
Os mercados animaram-se com a vitória de Javier Milei. Assim rezam as crónicas destes dias seguintes às eleições na Argentina.
A eleição para Presidente da República de uma das maiores economias da região de alguém apresentado como um lunático que, apenas como exemplo, se apresentava nos comícios de motosserra na mão ou, em alternativa, agitando a bandeira de Israel, devia ser algo para deixar qualquer boa alma preocupada.
Mas o capital não tem alma e, se tivesse, não seria boa.
Ao capital, o que lhe interessa, o que os anima, são as anunciadas medidas de privatização de toda a economia, a substituição da moeda nacional pelo dólar, ou seja, a entrega do que resta do saque que o FMI vem promovendo ao longo de décadas, ao domínio do grande capital multinacional e, particularmente, do imperialismo norte americano.
Nem a liberalização do comércio de órgãos humanos, que o personagem agora eleito também defende, será motivo de preocupação para os mercados, antes vendo nela mais uma oportunidade de negócio.
O capital, que sempre usa a estabilidade como argumento essencial, que é useiro e vezeiro em fazer chantagens com os povos, ameaçando, por exemplo, com a deslocalização de empresas, para afastar a participação e a luta, apostou em Milei, que parece ser o contrário dessa estabilidade.
Os mercados, que têm bem presente as insanidades de Bolsonaro e Trump, convivem bem com isso. O objectivo é sempre o mesmo. Todos os caminhos são bons para agravar a exploração e concentrar a riqueza.
Enquanto a «direita moderada», essa entidade que cobre sempre todos os desmandos do capital, se apressou, lá, a dizer presente no desvario colectivo encabeçado por este multimilionário, que quer impedir que a Argentina desempenhe o papel que lhe cabe na rearrumação de forças em curso, designadamente pela participação nos BRICS, e, cá, exulta e espuma de alegria, os mercados animam-se.
Onde é que já vimos este filme?